Crise põe em risco o Mercosul - Miguel Ignatios
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de fevereiro de 1999
Miguel Ignatios 
A crise aberta com a desvalorização do real poderá em pouco tempo estender-se até o Mercosul. Se isso acontecer, na melhor das hipóteses, ocorrerá um atraso no cronograma de expansão do bloco. Pior ainda seria o início da operação desmanche, que colocaria por terra tudo o que já foi conseguido até hoje.
Enquanto economistas travam mais uma discussão bizantina (se o Plano Real acabou ou não), o governo parece ignorar o risco maior, que é a possibilidade de acontecer um sucateamento psicológico do Mercosul. Criado pela dinâmica da globalização para funcionar como um vestibular para o Primeiro Mundo, o Mercado Comum do Cone Sul está prestes a ser atropelado pelo fluxo de capitais especulativos.
Vítima da euforia do sucesso do Plano Real e da mania de deixar tudo o que é difícil e chato para depois, o governo defronta-se agora com dois desafios: o interno, que consiste em obrigar Estados e municípios a cortar seus gastos; e o externo, que é o de fechar o mais rapidamente possível o novo acordo com o FMI. Ou seja, a ação geopolítica do País no âmbito do Mercosul está totalmente paralisada.
É nesse contexto que deve ser entendida a proposta argentina de dolarizar as economias dos demais parceiros do mercado comunitário. Por trás de tal sugestão, defendida pelo presidente Carlos Menem, já no final do seu segundo mandato, esconde-se a estratégia de plantar a semente de um futuro dólar sul-americano ou latino-americano.
O que o presidente Menem quer não é, como alegam alguns, deixar de ter uma moeda nacional e, desse modo, abrir mão de uma política monetária autônoma. Se os demais países do Mercosul adotassem, além de suas moedas nacionais, o dólar, como já fez a Argentina, criar-se-ia, em pouco tempo, um espaço econômico para reciclar o capital especulativo, abrigado hoje provisoriamente nos Estados Unidos.
A lógica implícita na proposta argentina é dar garantias mínimas (uma espécie de hedge monetário) ao capital especulativo atraído para o Mercosul. E isso é factível com a adoção de duas moedas. O capital especulativo entra nas Bolsas, por exemplo, como real ou peso. Realiza lucros e migra depois para os títulos emitidos pelos governos. Se houver boas oportunidades comerciais ou industriais (como parcerias), ele acabará sendo atraído para o setor produtivo, desde que, é óbvio, o retorno sobre o investimento seja maior. Ao final de um período, o que era US$ 100 mil, transforma-se, após ter sido reciclado, em R$ 150/180 mil.
Mas qual é o risco que ele corre? Um só: o de ser pego no contrapé, como aconteceu com a desvalorização do real. Explico melhor: os R$ 180 mil se tivessem sido reconvertidos em dólares passariam a valer, admitindo-se a paridade hipotética de um por um, R$ 270 mil (desvalorização de 50%). Ora, com duas moedas correntes, as conversões de moedas são automáticas a qualquer tempo.
Bem, mas isso interessa ao Brasil? É claro que não. Um Mercosul dinâmico e estável pressupõe um dos parceiros com uma indústria forte (Brasil), dois ou três com pecuárias e agroindústrias competitivas (Argentina, Chile) e dois hábeis comerciantes, prestadores de serviços e recicladores de capital especulativos (Uruguai e Paraguai). Portanto, o que a Argentina (ou talvez apenas o presidente Menem) quer é agregar à sua condição atual a de um próspero centro financeiro reciclador de dólares especulativos, provenientes dos Estados Unidos, Europa, Sudeste Asiático e até mesmo da América Latina.
A sorte do Brasil é que o presidente Menem dificilmente será eleito para um terceiro mandato. As pesquisas de lá dão vantagem para o candidato do Partido Radical, de oposição. E ninguém sabe o que ele pensa a respeito da adoção de duas moedas para o Mercosul.
Passada a atual crise brasileira, com ou sem Plano Real, será necessário fazer-se um balanço realista para evitar-se, no futuro próximo, equívocos do tipo moeda forte em um País de inequívocas vocações industrial, agrícola e agroindustrial como o nosso. No meio do debate, com certeza, haverá serenidade para se descobrir quem exerceu, ao longo dos quatros anos e meio do Plano Real, o papel de Martinez de Hoz (que liquidou a indústria argentina, na década de 80). A lista de candidatos não é pequena.
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).
E-mail: [email protected]


