Crise pode custar caro a 'emergentes'
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terça-feira, 24 de abril de 2001
France Presse De Paris 
Os mercados financeiros temem que uma renegociação da dívida argentina torne mais difíceis e caros os empréstimos para os outros países emergentes, já afetados pela crise turca, segundo analistas. Não houve nenhuma nova emissão de um país emergente há vários dias, para os países da América Latina o mercado está fechado atualmente por causa da crise argentina, disse Charles Zerah, administrador de investimentos do banco francês Crédit Lyonnais Asset Management.
Para todos os países emergentes, em particular os que estão na esfera latino-americana, o custo do crédito ficou caro, indicou Pierre Laurent, economista encarregado da dívida dos mercados financeiros emergentes na CDC Ixis.
Argentina tem grandes dificuldades para pagar sua dívida pública, que se apresenta principalmente sob forma de obrigações internacionis, isto é, que o país deve se refinanciar nos mercados internacionais, explicou Laurent.
O país não recuperou ainda a confiança dos investidores, e não tem capacidade de voltar a se endividar nos mercados, a menos que aceite taxas de juros muito elevadas, o que poria em perigo a solvência do país, assinalou Laurent, estimando que a probabilidade de um default (suspensão de pagamentos) é muito forte.
Na noite de domingo para segunda, o ministro argentino da economia, Domingo Cavallo, anunciou a suspensão de uma venda de bônus do Tesouro no valor de 750 milhões de dólares.
O mais provável é uma suspensão de pagamentos a frio, isto é, negociado com os investidores, com o FMI, que acarretará uma moratória de pagamento e uma renegociação, eventualmente um período de graça, mas em nenhum caso um abandono completo do capital, sugeriu Laurent.
O mercado teme um intercâmbio de dívida voluntário do país, mas não crê que a Argentina possa anunciar uma moratória sobre sua dívida, disse por sua vez Zerah. Segundo rumores do mercado, alguns bancos americanos entabularam conversações com as autoridades financeiras argentinas para tentar organizar um intercâmbio de dívida voluntário, e propor aos investidores que possuem títulos de menos de cinco anos trocá-los por uma nova emissão a 10 e 30 anos, assinala este técnico.
Se Argentina suspende pagagmentos, o custo do crédito para os mercados emergentes se encarecerá, e inevitavelmente os países mais afetados serão os latino-americanos, frisou Laurent. Cavallo negou veementemente semana passada em Londres que seu país vá anunciar uma moratória.
Ciclo virtuosoA estrategista para mercados emergentes do banco de investimentos Caboto, Siobhan Morden, disse que a crise argentina aliada à incerteza com a sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso e as denúncias de corrupção no Brasil, está revertendo o ciclo virtuoso da economia brasileira, iniciado há dois anos. Essa situação atual logicamente prejudica os fundamentos da economia brasileira, embora não os ameace, disse Morden à Agência Estado. Segundo ela, quanto mais tempo a instabilidade na Argentina continuar, mais a economia brasileira será afetada, inclusive com uma eventual necessidade de novos aumentos na taxa de juros para se evitar o aumento inflacionário.
O desempenho da economia brasileira não será tão positivo como se pensava há alguns meses, afirmou. Mas é bom ressaltar que a economia brasileira hoje, se comparada a 1999, está muito mais bem preparada para enfrentar crises como a atual.


