A safra de verão já começa a ser semeada em todo o Estado. As condições do tempo neste período estão sendo favoráveis ao desenvolvimento da cultura. Mas o clima anda muito quente no mercado financeiro, enchendo de temor e incertezas o setor agrícola. Apesar de atuar numa atividade de risco, o produtor, até então temia pelo comportamento climático. Agora, outro ''inimigo'' entra em cena com mais força: o preço das commodities no mercado agrícola internacional. Para quem vai vender? A que preço? A conta vai retornar ao vermelho?
Para essa safra, segundo especialistas não há o que temer. O plantio da safra 2008/2009 está garantido, segundo a Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar). O que exige cautela é a safrinha e a produção 2009/2010. Os produtores esperam o melhor momento de alta nos preços da soja na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&FBovespa), diante do sobe e desce do mercado. Apesar de não ser um hábito da maioria dos agricultores do Estado, a opção do mercado futuro é apontada por especialistas como a saída para, pelo menos, cobrir custos.
Consultores do mercado da BM&F indicam que este não é o melhor momento para fazer ''hedge'' - travar preço para vender a safra no primeiro semestre do próximo ano. O preço pela Bolsa, há 90 dias, era de US$ 32 a saca e hoje varia na casa de US$ 22 no Porto de Paranaguá. ''É preciso esperar assentar a poeira do mercado financeiro para vender a produção no mercado futuro'', orienta João Pedro Cuthi Dias, consultor da BM&F. A declaração foi feita pelo especialista em commodities agrícola durante o evento ''BM&FBovespa vai ao campo'', que aconteceu em Cascavel, na última sexta-feira. A iniciativa visa popularizar a Bolsa para que agricultores invistam no mercado futuro.
Como o setor previa um aumento, antes da queda das bolsas, de 6% na produção da safra de soja 2008/2009, este número passou a ser mais acanhado, 3%, também por causa dos custos de produção. O Paraná colheu na última 12 milhões de toneladas de soja.
A pressão nos custos para o próximo plantio está na alta dos preços dos fertizantes de um ano para cá. Como noticiado no primeiro semestre pela FOLHA, os fertilizantes majoraram seus preços mais de 300% em relação ao ano passado. O próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) entrou no circuito para avaliar a existência de prática de cartel, já que três empresas dominam o mercado interno. Outras medidas também estariam sendo tomadas, como a exploração de reservas de potássio e fósforo em território nacional, já que estes produtos são importados. A própria Petrobras estaria retomando estudos para produção de nitrogênio.
O agricultor Valdecir Alberto Lettrari, que possui terras no Paraná e Mato Grosso, avalia que a safra de 2009/2010 está difícil de ser planejada devido aos custos atuais. ''Já estou plantando soja, mas a safrinha tenho dúvidas se vou plantar e a próxima safra não tenho como planejar, devido os altos custos'', desabafa. Ele citou como exemplo, o fato de poder trocar, há um ano, uma saca de soja por um saco de fertilizante. ''Agora preciso de duas sacas de soja para comprar um saco de fertilizante'', compara.
Lettrari, que planta soja na região de Palotina (96 km ao norte de Cascavel), informa que comprou com 20 mil sacas um total de 1.000 toneladas de fertilizantes, com o preço por tonelada de adubo químico custando R$ 1.680. Ele conta que já chegou a pensar em trocar os mil sacos de fertizantes comprados para o plantio desta safra por sacas de soja. ''Se trocasse, receberia 40 mil sacas, receberia as 20 mil que paguei e lucraria com outras 20 mil'', ironiza.
O agricultor diz que está acompanhando angustiado a queda do preço da soja no mercado internacional. Lettrari informa que fará hedge, mas está esperando o melhor momento na BM&FBovespa para o preço da saca de soja majorar no mercado internacional e então vender toda produção ainda este ano. ''Do jeito que vai, não dá para planejar a próxima safra'', pontua.
O consultor João Pedro Cuthi Dias, da BM&F é taxativo ao dizer que a atual situação de mercado coloca em xeque a rentabilidade do produtor. Entretanto, orienta agricultores e cooperativas a pelo menos fazer hedge para cobrir do custo. ''O agricultor deve procurar uma corretora reconhecida pelo Banco Central para operar na BM&FBovespa.'' A partir deste contato, o produtor deve acompanhar as cotações do produto no mercado externo e com, a devida orientação dos corretores, vender sua produção no momento adequado.

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