A economia mundial já começa a fazer estragos consideráveis no consumo brasileiro. O transporte de produtos para consumo no comércio em geral no Paraná caiu em média 30%. O Estado conta com uma frota de 92,5 mil veículos de cargas, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). O setor de autopeças é o mais afetado em números de caminhões parados, sem carga prevista para este ano. No setor calçadista, a queda é de 50%. No varejo, o desaquecimento chega a 30% no volume transportado.
''Há uma queda generalizada no transportes de cargas dentro do Paraná'', declarou Fernando Nunes, presidente do Sindicato das Empresas de Cargas do Estado do Paraná (Setcepar). Segundo ele, a crise nos transportes paralisou 70% da frota dos veículos que transportam autopeças no Paraná, se comparado ao volume transportado ano passado. Ele lembrou de férias coletivas em montadoras como a Renault e Fiat. ''Este é um sintoma da crise global'', declarou. ''No geral, as empresas estão transportando em média 30% menos do que o ano passado'', resume.
Para Nunes, a crise se deve a queda no consumo nos últimos meses, diferente do ano passado quando o setor do comércio registrou um crescimento de 13% na venda de produtos para festas de fim de ano. ''Tanto o logista quanto o consumidor estão mais prudentes em tempos de crise'', diagnosticou o dirigente sindical. Ele lembrou que esta situação deve se prolongar até o início de março, quando o país volta a funcionar depois do carnaval.
Para o consultor da Federação das Indústrias do Estado Paraná (Fiep), Maurílio Schmitt, a expansão exagerada do crédito e do consumo desde 2003 não foi acompanhada de financiamentos e investimentos por parte do governo para a indústria nacional. Segundo ele, o consumo desenfreado fez com que o governo brasileiro ora aumentasse a taxa de juros para conter o consumo, ora importasse bens de consumo duráveis como geladeira, televisão, além de ''quinquilharias chinesas''.
Schimitt é também consultor econômico da Associação Comercial do Paraná (ACP). ''O crédito consignado, do neto que comprava em nome do avô, por exemplo, foi o mais comum nos últimos anos'', exemplificou, ao explicar que falta a cultura da poupança entre os brasileiros. Segundo ele, o país vivia até setembro deste ano da poupança externa, sendo este o dinheiro que financiava o crédito fácil.
O governo atraía capital internacional com a alta taxa de juros, na casa de 12% ao ano. Os EUA e a Europa pagavam antes de setembro 2% e 4% ao ano, respectivamente. Com a queda das bolsas, 50% do capital estrangeiro abandonou o País para cobrir rombos financeiros em suas nações. Hoje a Bovespa aponta uma queda de 50% no volume de ações negociadas, na casa dos 35 mil pontos. Aliado a esta situação, o dólar está valorizado 30% acima do real. Schmitt avalia que este dado pode representar uma oportunidade para as indústrias brasileiras no próximo ano, já que os produtos externos estarão mais caros.
Como economista, Schmitt lembra que a média do PIB mundial nos últimos 16 anos era de 5%, sendo então considerada o ''espetáculo do crescimento mundial''. O especialista lembra que o País atingiu este patamar do PIB global em 2006 e teve pouco tempo para desfrutar desta lua-de-mel da economia globalizada. Segundo ele, o relatório da pesquisa Focus do Banco Central aponta que economistas de todo Brasil avaliam que cresceremos 2,8% do PIB em 2009.
Mesmo com o ministro Guido Mantega ''teimando'' em 3,8% do PIB para o ano que vem, Schmitt ressalvou que isto não importa, pois o consumo de agora em diante terá que ser criterioso, tanto por parte de consumidores quanto por parte de empresários do comércio e da indústria. O motivo, segundo ele, é que vamos entrar num período recessivo da economia mundial.

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