Passado o último ataque da especulação globalizada contra as principais bolsas de valores do mundo que durou quatro dias, durante os quais pulverizou ativos financeiros no montante do PIB brasileiro, ou seja, algo em torno de US$ 800 bilhões, os analistas já fazem o balanço preliminar dos estragos. Bill Gates, Ted Turner, dono da CNN; e - ironia suprema - o próprio governador de Hong Kong, dentre outros, ficaram alguns bilhões mais pobres. Faz parte do jogo. O que eles perdem hoje ganham amanhã. Mas e o Brasil? Bem aí começam as explicações de sempre: o Banco Central agiu rápido e corretamente, as reservas do País, avaliadas em US$ 61 bilhões seriam mais do que suficientes, caso fosse necessário, para lastrear os recursos estrangeiros voláteis aqui aplicados, estimados entre US$ 35 e US$ 38 bilhões e coisas do gênero.
Claro, felizmente, a mídia também registrou críticas lúcidas, como a do deputado Roberto Campos, por exemplo, para quem parte da conta brasileira resultante do ataque especulativo do capital globalizado poderá ir pra o programa de privatizações. Após o bem-sucedido leilão da CPFL, no entanto, os problemas maiores poderão ficar para 1998, quando deverão ocorrer as privatizações das subsidiárias estaduais da Telebrás e de algumas das grandes geradoras de energia elétrica, todas até antes da crise nas bolsas muito cobiçadas pelo capital estrangeiro. O que União e governos estaduais esperam arrecadar por elas talvez fique abaixo das estimativas. Em outras palavras, como o programa de privatizações demorou a deslanchar, estamos correndo o risco de vender nossas melhores e mais rentáveis estatais a preço de banana simplesmente porque a especulação financeira globalizada destruiu boa parte dos recursos extremos disponíveis para a compra de ativos, no caso, nossas estatais.
E é bom que nos acostumemos. O que aconteceu entre os dias 23 e 28 de outubro é apenas um episódio dentre tantos outros que o futuro nos reserva. Crises como a do ‘‘setembro negro’’, em 1982; o crash da Bolsa de Nova York, em 1987; e a do México, conhecida como ‘‘efeito tequila’’, em 1994/1995, infelizmente, são cíclicas e tendem a se tornar mais frequentes à medida que a globalização financeira avança.
Mas, afinal, o que há por trás dessa crise que começou, timidamente, em julho, com um ataque especulativo contra a moeda da Tailândia? Resumidamente, são três os fatores capazes de explicá-la: o político, o econômico e o estratégico. Vamos analisar cada um deles separadamente.
O fator político determinante para que a crise eclodisse foi a retomada de Hong Kong pela China. Talvez o governo chinês tenha cometido grave erro de avaliação ao aparentemente não perceber que o modelo de desenvolvimento dos ‘‘tigres’’ do Sudeste Asiático estava à beira do esgotamento, após quase duas décadas de inegável sucesso. Em tal contexto, o fim da soberania britânica em Hong Kong, importante centro financeiro regional reciclador de eurodólares e de iens, só fez apressar a decisão dos investidores internacionais de diminuir e até zerar suas aplicações naquela região. Talvez os governantes chineses tenham previsto o declínio de Hong Kong mas não tão rápido.
Quanto ao fator econômico, hoje, já é consenso entre analistas internacionais a ocorrência do que eles chamam de liquidação de ativos financeiros nas bolsas regionais, a começar pela de Tóquio. Tal fenômeno segundo eles pode perdurar por até dois anos. Os grandes investidores japoneses, na ótica de tais analistas, principalmente bancos e fundos de pensão, estariam alavancados em demasia em ações negociadas nas bolsas nipônicas e dos ‘‘tigres’’ asiáticos. Por isso, teriam decidido desfazer-se de suas posições. Obviamente, quando tais recursos entraram nas bolsas daquela região inflacionaram os preços das blue chips locais. Agora, estaria ocorrendo o processo inverso. Com a saída dos megainvestidores do mercado, os preços das ações e dos ativos que elas representam estariam em queda livre.
O terceiro fator, talvez o mais importante por explicar os dois anteriores, é que o Sudeste Asiático vem deixando de ser, já há algum tempo, a menina dos olhos do capital internacional. Na década de 80 e até os meados da atual, com a derrocada do socialismo e o descontrole das economias dos países em desenvolvimento, notadamente os da América Latina, não havia melhor refúgio para o capital internacional do que as emergentes economias do ‘‘tigres’’ asiáticos.
Aos poucos, contudo, tal situação começou a mudar com a incrível velocidade da globalização: a Comunidade Européia consolidou-se, o que apressou a criação do NAFTA; a ex-União Soviética e todos os países-satélites da Europa Central e do Leste começaram a reimplantar o capitalismo; Argentina, México, Chile, Brasil e Peru, dentre outros na América Latina, estabilizaram, com relativo sucesso, suas economias. Ora, com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, as oportunidades para investimentos multiplicaram-se enormemente. Hoje, analistas têm enorme trabalho para calcular o melhor e mais seguro retorno do capital aplicado; se na Argentina ou no Canadá; se na Rússia ou na República Tcheca; se na Itália ou na Espanha e assim por diante.
Isso nos leva, obrigatoriamente, à conclusão de que os lugares que se dispõem a receber investimentos produtivos têm que oferecer contrapartidas à altura da disputa pelo capital externo. A pergunta que fica para a reflexão de todos é: o Brasil está em condições nesse cenário de alternativas?

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