A crise é internacional; não se resume a economias fragilizadas, a países emergentes. A histeria ontem começou na Rússia, onde a bolsa despencou 19,5% e novamente o governo suspendeu as negociações do rublo, após a moeda ter levado um tombo de 34%, para 11,0986 por dólar. Passou por todos mercados top de linha europeus: a bolsa de Paris caiu 4,28%; a de Londres, 3,19%; a de Frankdurt, 3,29%. O pânico ganhou ressonância em Wall Street, onde o Dow Jones derreteu 357 pontos, ou 4,19%, para 8.165 pontos.
Naturalmente, os mercados latinoamericanos potencializaram as baixas, pelos riscos envolvidos. O Ibovespa fechou em queda 9,95%, a maior perda desde 27 de outubro do ano passado, quando a bolsa paulista caiu 14,97% em decorrência da crise asiática. No mês, a desvalorização do Ibovespa atinge 38,21%. A mínima ontem chegou a superar os 10% mas, como aconteceu na última hora do pregão, não houve circuit-breaker. A Bolsa de Buenos Aires caiu 10,6%, o México perdeu 6,11% e a Venezuela, 6,7%.
Os mercados da dívida externa também foram fortemente atingidos. O brasileiro C-bond caiu 12,1%, para 50,5 centavos de dólar, e o IDU despencou 9,2%, para 79 centavos. Somente um ativo parece ter se beneficiado da crise: foram os títulos do Tesouro norteamericano, procurados como porto seguro. O juro projetado pelo T-bond de 30 anos caiu para 5,344%, de 5,417% ontem.
Tanto o ministro da Fazenda, Pedro Malan, como o presidente do Banco Central, Gustavo Franco, fizeram análises semelhantes: a crise é generalizada, globalizada e nada tem a ver com a situação econômica do Brasil. Ambos também professaram a confiança de que o País sobreviverá a esta turbulência. Malan confirmou ainda que participará, na próxima semana, da reunião convocada pelo FMI com os países latinoamericanos para discutir o atual momento.
Após o encerramento dos negócios, chegou a informação de que o governo reduzirá para zero a alíquota do Imposto de Renda para fundo de renda fixa capital estrangeiro. Trata-se de mais uma medida para refrear uma eventual revoada de dólares para o exterior, que se soma às tomadas na semana passada: permissão que 100% dos recursos da 63 caipira sejam aplicados em títulos públicos; encurtamento dos prazos mínimos para captação externa; e autorização para que recursos destinados à privatização ingressem antecipadamente.
Para operadores, a medida é uma sinalização que o governo não está de braços cruzados. Mas, diante da dimensão da turbulência, poderá não surtir efeito algum, imersa no oceano de desespero que tomou conta dos players globais.
Se havia ainda algum sangue frio no mercado financeiro, até este ferveu ontem. Os players parecem ter contabilizado ontem a real dimensão do prejuízo que o pacote russo imporá aos bancos e entraram em pânico. As ordens de venda de ativos foram pulverizadas pelo mundo todo, como forma de obter recursos para cobrir os prejuízos acumulados nos últimos dias - e os que ainda estão por vir.
A avaliação sobre a dimensão da crise mudou desde ontem. O que era antes o resultado de problemas entre países emergentes, com repercussão internacional, passou a ser uma crise de todo o mundo. A desvalorização de ativos não respeita mais fronteiras e o pânico que tomou conta dos mercados deixa qualquer país - até os de língua inglesa - em situação de vulnerabilidade. ‘‘Ninguém sabe onde essa crise vai parar’’, diz um operador.
Nas mesas de câmbio, que pareciam ser menos atingidas por todo esse tumulto financeiro graças à força das reservas internacionais brasileiras, a apreensão também aumentou. O dólar comercial subiu 0,30%, elevando a cotação para R$ 1,1763. Dizem os operadores que a alta não foi maior porque o Banco do Brasil operou vendendo dólares.

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