Crise japonesa ameaça economia global
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 1998
Velisarios Kattoulas e Kenneth Klee, da Newsweek 
O Japão afunda e arrasta a Ásia consigo. E o restante do mundo? Quando o iene caiu na semana passada, acertou Lee Kwang Ho na cabeça. Lee é gerente de marketing da maior companhia de construção naval da Coréia do Sul, a Hyunday Heavy Industries. Nos primeiros cinco meses deste ano, a companhia recebeu encomendas para construção de 30 navios, que representavam US$ 1,7 bilhão no faturamento de bens de exportação, tremendamente necessários para o conglomerado claudicante - isto, sem falar dos benefícios para a problemática economia do país. Agora o restante do ano parece desalentador. Concorremos em pé de igualdade com empresas japonesas nos mercados globais de construção naval, diz Lee. Somos os primeiros prejudicados pela desvalorização do iene. Mas não os últimos. Isto ficou evidente na semana passada, quando o Japão divulgou os números que oficializaram sua recessão econômica. Mercados monetários da região e bolsas de valores do mundo todo já haviam concluído que a locomotiva econômica da Ásia avança para um despenhadeiro. Na Coréia do Sul, Tailândia, Indonésia e China, as esperanças de que a agonia econômica da Ásia teriam rápido fim cederam lugar à desesperança - e à raiva em relação aos japoneses.
Em Washington e Nova York, a impressão de que os Estados Unidos continuariam enriquecendo enquanto metade do mundo ia à falência foi substuída por uma reflexão mais moderada sobre as perspectivas dos lucros das empresas - e a mais raiva em relação aos japoneses. O governador do Banco Popular da China, Dai Xianglong, queixou-se do mal que o Japão estava fazendo ao seu país, num tom de moderado presidente de banco central, mas o simples fato de ele haver falado foi significativo. O secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, foi como sempre exato quando declarou à Comissão de Finanças do Senado que a intervenção governamental não faria nenhum bem, cabendo ao Japão consertar sua economia. Coube ao vice-primeiro-ministro da Tailândia, Sapuchai Panitchpakdi, falar com franqueza. Se não interromperem a queda do iene, disse ele em Hong Kong na quinta-feira, vai ser desastroso.
As bolsas de valores do mundo inteiro concordam. Na semana passada, quando a moeda japonesa baixou de 139 ienes para 144 ienes por dólar, o mercado acionário do Japão teve queda de 2% e a média Nikkei de 225 ações encerrou a sexta-feira em 15.022 pontos. Horas antes, havia caído para menos de 15 mil pontos pela primeira vez desde 14 de janeiro. Nos EUA, a média industrial Dow Jones perdeu 202,77 pontos na semana, embora se estabilizasse depois. Em Hong Kong, ameaçada pela recessão, os operadores fizeram o índice Hang Seng baixar 7,7% na semana. Eles receiam que um iene mais fraco desestabilize a moeda da China, levando à desvalorização do dólar de Honk Kong. As taxas de juros em Hong Kong - em torno de 12% para empréstimos de três meses - são as mais altas dos últimos 14 anos, graças aos esforços de seu governo que afugenta todo ataque à moeda nacional. O iene japonês é a grande causa do colapso do mercado, diz Kent Rossiter, veterano conselheiro de investimentos na Nikko Securities em Hong Kong.
Predominam no mercado as teorias sobre o que os governantes do Japão estão pensando. O iene continua em queda por dois motivos: o povo japonês continua poupando em vez de gastar; e, cada vez mais, essa poupança é investida fora do Japão. A turbulência atual tem muito a ver com uma série de pacotes de estímulo econômico que não conseguiram iniciar o aquecimento da economia. O governo contemporizou durante meses até aprovar em abril o pacote mais recente, de US$ 120 bilhões - um recorde. Mas os governos federal e locais brigam por causa do montante com que cada um deve contribuir para o pacote, grande parte do qual só será gasto no próximo ano. Só agora o superpacote deve entrar em vigor.
O Japão está sendo forçado a mudar, principalmente a abrir para o mundo seus mercados financeiros doentios, mas muita gente duvida que o país vá abrir mão de algo mais além do que já cedeu em seu velho sistema.


