Crise gerada pelo tarifaço ameaça mercado de trabalho
Setor madeireiro demitiu 4 mil funcionários e outros 4,5 mil estão em risco; entidades patronais e de trabalhadores defendem negociação
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sexta-feira, 19 de setembro de 2025
Setor madeireiro demitiu 4 mil funcionários e outros 4,5 mil estão em risco; entidades patronais e de trabalhadores defendem negociação

Pouco mais de um mês depois do início do tarifaço de 50% aplicado sobre os produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos, já é possível observar os impactos da medida protecionista de Donald Trump no mercado de trabalho nacional. Demissões em massa, férias coletivas, funcionários com suspensão temporária do contrato de trabalho e empresas que reduziram o ritmo da produção são alguns dos efeitos da queda nas exportações aos EUA. E se o cenário não for revertido, as perspectivas são de um enxugamento ainda maior do quadro de trabalhadores em vários setores da atividade econômica até novembro.
Um dos setores mais impactados é o de madeira processada. Com a produção ajustada às exigências do mercado norte-americano, as indústrias estão com dificuldade para realocar os produtos para outros países após o cancelamento de contratos e embarques e a diminuição do número de novos acordos fechados.
No Brasil, essa cadeia produtiva empregava 180 mil trabalhadores formais, sendo quase 40 mil contratados por empresas paranaenses. Há duas semanas, uma delas anunciou a demissão de 400 empregados de uma só vez nas unidades que mantém em Jaguariaíva e em Telêmaco Borba (Campos Gerais).
Outra indústria, sediada em Guarapuava (Centro-Sul), tem 900 trabalhadores “praticamente parados” e a serraria que funcionava em Quedas do Iguaçu fechou, segundo informações da Fetraconspar (Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário do Estado do Paraná).
A Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente) contabilizou, até 15 de setembro, cerca de 4 mil demissões, 5,5 mil trabalhadores em férias coletivas e 1,1 mil em layoff, que é a suspensão temporária dos contratos de trabalho. Em estimativa feita após um levantamento entre os seus filiados, a associação apurou o risco de outras 4,5 mil demissões se o tarifaço não for revertido em um prazo de 60 dias.
As exportações de alguns dos principais produtos de madeira processada que eram vendidos aos EUA caíram entre 35% e 50% de julho para agosto, segundo a Abimci.
Em 2024, as exportações de madeira brasileira aos EUA somaram US$ 1,6 bilhão. Desse volume, US$ 615 milhões saíram das indústrias paranaenses. O mercado norte-americano consumia, em média, 50% da produção nacional. Em alguns segmentos, no entanto, 100% das vendas eram feitas para os Estados Unidos. O maior comprador era o setor da construção civil.
“A Região Sul, principalmente o Paraná, é o lugar de madeira mais certificada no Brasil. Mais de 35% da madeira certificada e assegurada estão no Estado, em cidades como Telêmaco Borba, Palmas, União da Vitória e Imbituva”, disse o presidente da Fetraconspar, Reinaldim Barboza Pereira. Ele integra a comitiva brasileira composta por representantes de cinco centrais sindicais que viajou a Genebra, na Suíça, para participar de uma reunião com a diretora-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Ngozi Okonjo-Iweala, na manhã desta quinta-feira (18).
Em relação aos trabalhadores da indústria da madeira processada, o presidente da Fetraconspar ressaltou que a situação ainda não é preocupante no segmento de móveis, cuja matéria-prima pode ser aproveitada na produção que abastece o mercado interno. “Mas para a madeira já cortada, está muito ruim”, avaliou. “Para a maior parte das empresas do Paraná e de Santa Catarina, com madeira trabalhada, sarrafada e esquadrias feitas justamente para o mercado americano, a expectativa não é boa para a nossa categoria”, disse Pereira.
Essas empresas trabalham com 95% de sua produção voltada às exportações e o presidente da Fetraconspar acredita que se não houver negociação entre os dois governos, os trabalhadores em férias coletivas e em layoff não voltarão ao trabalho. “(Se demitidos) Eles vão para a construção civil, que está de vento em popa, mas é nas grandes cidades do estado do Paraná. Nas pequenas cidades, onde estão essas indústrias, perto das florestas, não têm vagas na construção civil. Se acontecer o caos que estamos imaginando, eles vão ter que migrar e isso é péssimo.”
Para evitar o aprofundamento da crise no mercado de trabalho do setor da madeira processada, a Abimci defende a negociação direta entre os governos do Brasil e dos EUA. “Essa competência é exclusiva do governo federal que, até o momento, não foi exercida com o necessário bom senso”, criticou a associação em release divulgado à imprensa.
A Abimci reforçou que nos últimos dois meses, participou de reuniões com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, nas quais foram apresentados números e ressaltada a importância do setor de madeira processada para a balança comercial brasileira. Em todas as reuniões, defendeu a abertura de um canal de diálogo diplomático com o governo norte-americano, com negociações baseadas em “argumentações técnicas e comerciais, isentas de componentes políticos e ideológicos”.
Alimentação
Artur Bueno Júnior, vice-presidente da Confederação Nacional da Alimentação, também participou da comitiva à Genebra, representando a Nova Central Sindical. Segundo ele, o foco é mostrar que o tarifaço está impactando de uma forma negativa o Brasil e isso vai repercutir nos Estados Unidos. “O impacto é muito grande e o lado mais fraco da corda é o trabalhador que nem sempre tem ajuda do governo federal”, comentou o sindicalista.
Na indústria frigorífica, a Confederação Nacional da Alimentação calcula em 300 mil o número de trabalhadores empregados no país e boa parte das empresas tem buscado alternativas para evitar os desligamentos, como férias coletivas e redução do ritmo de produção, com os abates sendo realizados em dias alternados. “É uma mão de obra qualificada, especialmente para o abate de animais grandes, difícil de encontrar no mercado. Por enquanto, não estão demitindo, mas se a situação persistir por mais tempo, o estrago na questão do emprego será grande, principalmente no setor bovino”, disse Bueno Júnior, que estima o agravamento dos efeitos da taxação nos empregos do setor frigorífico em dois meses caso não haja uma revisão tarifária.
Além de trabalhar pelo avanço das negociações entre os dois países, Bueno Júnior disse que as centrais sindicais discutem com o governo federal a adoção de medidas de amparo aos trabalhadores dos setores afetados pela taxação, a exemplo do que foi feito na pandemia de Covid-19, quando o governo adotou medidas emergenciais para segurar os empregos, como a redução da jornada de trabalho.


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


