Crise ficou para trás, mas recuperação é lenta
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de novembro de 2009
Alessandra Saraiva<br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - O pior da crise pode ter ficado para trás, mas seus efeitos ainda perduram em alguns segmentos da indústria. A retomada do nível de atividade da indústria não ocorre de maneira uniforme, como apontam dois levantamentos: a Sondagem da Indústria da Transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a pesquisa de indicadores industriais da Confederação Nacional da Indústria (CNI). As indústrias de madeira; material elétrico voltado para comunicações; e de máquinas e equipamentos ainda operam com capacidade instalada baixa, na faixa dos 70%, enquanto a média já opera acima de 80%.
A sondagem da FGV mostra que a média geral da indústria da transformação usou 82,9% de sua capacidade instalada em outubro, na série com ajuste sazonal - o maior patamar em 11 meses. Entretanto, três indústrias ainda amargaram Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) abaixo da média em outubro. É o caso de mecânica, com 75,3%; material elétrico de comunicações, com 79,0%; e mobiliário, com 71,8%.
Embora não utilize os mesmos parâmetros da pesquisa da FGV, a pesquisa de indicadores industriais da Confederação Nacional da Indústria (CNI) também detectou que em setembro setores similares a estes estavam com capacidade instalada bem abaixo dos níveis apurados em igual período no ano passado. É o caso de madeira, com 69%; máquinas, aparelhos e material elétrico com 78,2%; e máquinas e equipamentos com 78,3%.
''É importante lembrar que cada setor industrial tem sua própria média histórica de capacidade instalada, que não corresponde necessariamente à media da indústria da transformação'', lembrou o economista da CNI, Marcelo de Ávila. Mas, segundo ele, se os dados forem comparados com iguais períodos no ano passado, é possível perceber que estes setores, em pontos porcentuais, ''estão mesmo com capacidade mais fraca do que em setembro do ano passado.''
O economista comentou que, embora setembro seja considerado o início do período mais agudo da crise global, devido à quebra do banco Lehman Brothers, a indústria brasileira só começou a sentir de forma expressiva os efeitos da crise entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009.
Uma hipótese levantada por Ávila para explicar a lentidão na retomada de atividade desses setores, que atendem principalmente ao mercado externo, é a demanda ainda fraca no mercado internacional. ''A demanda internacional ainda não se recuperou da crise'', disse, acrescentando que vai levar algum tempo até esses setores que exportam voltarem a mostrar níveis de atividade semelhantes aos patamares observados no cenário pré-crise.
Entre os segmentos mais prejudicados, os levantamentos da CNI e da FGV são unânimes em detectar o setor mais afetado pela crise, em termos de capacidade instalada: a indústria do mobiliário e de atividades ligada à madeira. Procurado pela reportagem, o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Mobiliário (Abimóvel), José Luiz Diaz Fernandez, traçou um cenário negro para a indústria de móveis este ano. De acordo com ele, o setor tem convivido com quedas mensais de vendas em torno de 10% desde abril de 2009.
A situação piorou quando o governo estabeleceu medidas de isenção tributária para produtos da chamada linha branca (geladeiras e fogões). ''Dividimos, praticamente, os mesmos pontos e interesses de venda com produtos da linha branca. O consumidor aproveitou para comprar fogões e geladeiras mais baratos, e deixou de comprar móveis'', afirmou. Ele ressaltou ser favorável às medidas de isenção de impostos, mas que gostaria que a indústria do mobiliário também fosse incluída. ''O setor está passando por um momento delicado. O ano foi muito ruim e nosso Natal está muito comprometido'', afirmou.
Para o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério Souza, após uma queda mais forte no primeiro semestre, os níveis de utilização no momento estão ''razoáveis'' e começam a se recuperar para um nível próximo à média dos últimos anos. Ele acredita que os níveis de produção da indústria deverão retornar ao patamar de setembro do ano passado - recorde de produção do setor - no primeiro trimestre do ano que vem. Os investimentos, por sua vez, deverão voltar a patamares mais próximos de antes da crise a partir do segundo trimestre de 2010.
O levantamento da FGV também apura taxa mais baixa de Nuci para a indústria farmacêutica, na comparação com a indústria geral, de 77,5%. Mas este nível é coerente com as médias históricas de capacidade do setor, de acordo com o vice-presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), Nelson Mussolini.
A entidade conta 114 associados, que representam 80% do setor no País, que fatura em torno de R$ 33 bilhões ao ano. ''Mesmo sem ter muito efeito na capacidade instalada, a crise acabou por afetar nossa rentabilidade'', acrescentou o executivo. Ele explicou que, ao longo de 2009, o dólar médio ficou acima do registrado em 2008, o que elevou os custos da indústria como um todo, visto que esta atividade é muito dependente de insumos importados.
Entenda o Economês
Indústria de Transformação: Setor da produção industrial voltado para a transformação de matérias-primas em bens, distinguindo-se, portanto, da produção agrícola e da indústria extrativa vegetal e mineral. Abrange todos os momentos da produção industrial: matérias-primas elaboradas (aço), bens de capital (máquinas-ferramentas, autopeças) e bens de consumo (automóveis, roupas). Inclui-se nessa categoria a produção agroindustrial, como açúcar, sucos e beneficiamento de produtos agrícolas.


