Crise espalha-se pelo mercado global
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sexta-feira, 21 de agosto de 1998
Agência Estado 
Os mercados internacionais viveram ontem a maior turbulência desde a eclosão da crise asiática, em outubro passado. Houve um esboço de pânico generalizado, só amenizado pela relativa recuperação dos preços das ações em Wall Street. Na bolsa paulista, o circuit-breaker foi ativado às 12h34, quando a queda do Ibovespa atingiu 10%. É a quarta vez que se lança mão deste mecanismo desde que foi adotado, em outubro de 97. No Rio, também houve interrupção às 12h37.
Quando os negócios foram retomados às 14 horas, as bolsas começaram a se recuperar das mínimas, por causa da Bolsa de Nova York, da pequena melhora no mercado de bradies e da suposta atuação chapa branca do BNDES para sustentar os preços. A Bolsa de Nova York, que chegou a despencar 283 pontos no seu pior momento, fechou em queda de 77 pontos (-0,90%), em 8.533 pontos. Após perder quase 10%, o C-bond desvalorizava 7,37% àss 17 horas, cotado a 56,562 centavos de dolar. No Brasil, o Ibovespa fechou com perda de 2,85%, o indice futuro recuou 3,35% e o IBV carioca cravou queda de 4,7%.
Na Venezuela, o epicentro da hora, a Bolsa de Caracas fechou em forte queda, com persistentes rumores de que o governo vai desvalorizar o bolívar. O indice geral do mercado caiu 291,88 pontos (-8,4%) e fechou em 3.168,76 pontos. É o mais baixo nível de fechamento desde 27 de março de 1996.
E o bolívar fechou em queda moderada frente ao dólar, depois de pesada intervenção do Banco Central venezuelano. A moeda foi cotada a 575,50 bolivares por dólar, dos anteriores 574,50 por dólar. Outro mercado latino-americano que sofreu bastante foi o argentino. A Bolsa de Buenos Aires fechou com o índice Merval em queda de 34,61 pontos (-7,83%), em 407,22 pontos.
Nem mesmo a Europa escapou do terremoto desta sexta-feira. A Bolsa de Zurique perdeu 3,75%; Londres caiu 3,35%; Paris, -3,51%. Na Rússia, a bolsa recuou 5,55%. As quedas também foram generalizadas na Ásia e o Índice Nikkei recuou 0,60%. O mercado de renda fixa também experimentou ontem um terrível revival dos piores momentos da crise asiática. Na BM&F, os juros futuros dispararam e os contratos de prazos mais longos simplesmente não foram negociados. Desde anteontem, com o fechamento nervoso do mercado, o BC buscou um modo de tranquilizar o mercado e marcou para ontem leilão extraordinário de um lote de um milhao de NBC-E que já estava em sua carteira (vencimento em 29/12/99). A taxa do leilão acabou sendo altíssima: 18,50% de juro anual máximo (o juro médio ficou em 16,59%), mais correção cambial. E este resultado acabou dando sinalizações importantes para o mercado.
De acordo com varios analistas, o que o BC fez foi garantir ao investidor estrangeiro que ele terá uma alta rentabilidade se mantiver suas aplicações no País. A taxa de 18,50% ficou muito próxima, por exemplo, da taxa do IDU (19%). Ou seja, o BC deu a oportunidade para o investidor comprar aqui um título dolarizado, com rendimento bruto de 25% (os 18,5% mais 6,5% de variação cambial), enquanto o seu financiamento no mercado interno fica em 19,75% (TBC atual).
Por isso mesmo, muitos operadores estão usando a expressão subir o juro do dólar para resumir a interpretação deles sobre este leilão. Na verdade, trata-se de uma alta do juro pago ao investidor estrangeiro, que costuma fazer arbitragem com os juros pagos por títulos lá fora, explicou um profissional. É uma puxada de juros maquiada, especialmente para o investidor estrangeiro, definiu ele.


