Falta de energia, escalada do dólar e instabilidade argentina revertem cenário do início do ano e mudam projeções de empresários e trabalhadores brasileiros para a segunda metade de 2001. Mas o freio no dólar, com as medidas da última semana do BC, o pacote argentino, que pode contornar situação no país vizinho, e energia abundante no Sul mantêm otimismo no Paraná e podem evitar que 2001 torne-se o ‘‘ano perdido’’
Cautela na produção industrial e aumento de preços no comércio a partir do mês de julho. Esses são os principais reflexos da crise de energia, aumento dos juros e desvalorização cambial ocorridos durante o primeiro semestre deste ano.
Até o mês de abril, os lojistas paranaenses registraram grandes volumes de vendas à vista e crescimento do comércio por causa da estabilidade da economia. A previsão era de crescimento de 6% na economia paranaense. No entanto, o escândalo no Senado, a crise energética e a alta do dólar geraram instabilidade e a inadimplência aumentou. ‘‘O mercado parou. O volume de negócios diminuiu entre 20% e 30%’’, aponta Nelson Paulo Cunha Castro Júnior, presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Paraná (FCDL-PR).
Julho deverá ser o mês mais crítico, com demissões e aumento de preços. ‘‘As empresas não têm mais fôlego. A saída vai ser aumentar preços e demitir’’, prevê.
Após as últimas medidas do governo para conter a subida do dólar, Castro calcula que o crescimento volte a ser retomado após seis meses. Os setores que mais tiveram a crise agravada foram os que têm insumos básicos calculados pelo dólar, como o comércio de alumínio, ferro, aço, nylon e derivados do petróleo. Os reajustes no comércio deverão ser de 16% a 20%. As demissões poderão chegar, dependendo da continuidade da crise, a 10% do quadro total. Estima-se que em todo o Paraná existam cerca de 700 mil trabalhadores em lojas.
Na avaliação do supervisor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Cid Cordeiro, o mercado financeiro foi o grande prejudicado com a desvalorização do real, a crise da Argentina e a inconstância das bolsas de valores. Mas a economia real (representada pela produção e pelo emprego) não foi afetada diretamente no primeiro semestre. No primeiro quadrimestre, foram abertas 29 mil novas vagas no mercado formal paranaense – o maior índice dos últimos dez anos.
A crise energética é que deverá trazer reflexos para o segundo semestre, já que surgiu por volta de abril. ‘‘Haverá um impacto significativo, mas menor do que o que estava sendo avaliado’’, salienta. Cordeiro não prevê recessão. ‘‘O desemprego vai aumentar, mas por causa da criação de novos profissionais desocupados no mercado de trabalho. Não por demissões’’, afirma.
Uma preocupação do economista é com o aumento das taxas de juros do Banco Central. ‘‘Se a tendência de continuidade de aumento de taxas se efetivar, teremos então uma crise econômica séria no segundo semestre’’, avalia. A inflação deverá ser maior do que a prevista inicialmente pelo governo federal. Ela fechará no limite máximo de 6%. Num primeiro momento, o maior impacto foi da alimentação. No segundo semestre, teremos aumento de tarifas públicas e tabeladas (energia elétrica, combustível, telefone).
O setor da construção civil prevê aumento do preço do imóvel em mais de 30% por causa dos juros altos. Só não diz como o mercado – descapitalizado – absorverá altas nesse nível. Segundo o presidente do Sindicato da Construção Civil do Paraná (Sinduscon), Eliel Lopes Ferreira Júnior, as obras já iniciadas ou contratadas não serão paralisadas. ‘‘Os contratos precisam ser honrados. Enfrentamos a alta do dólar e a crise energética. O que nos atinge com maior intensidade é o crescimento das taxas de juros’’.
Contribuiria para o aumento de preços dos imóveis, segundo os empresários, a data-base dos trabalhadores da construção civil, agora em junho. O setor ocupa formalmente no Estado cerca de 200 mil funcionários. Apesar da crise, não deverão ocorrer demissões significativas na construção civil.

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