Crise esfria economia no 2º semestre
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2001
Luciana PomboDe Curitiba 
Falta de energia, escalada do dólar e instabilidade argentina revertem cenário do início do ano e mudam projeções de empresários e trabalhadores brasileiros para a segunda metade de 2001. Mas o freio no dólar, com as medidas da última semana do BC, o pacote argentino, que pode contornar situação no país vizinho, e energia abundante no Sul mantêm otimismo no Paraná e podem evitar que 2001 torne-se o ano perdido
Cautela na produção industrial e aumento de preços no comércio a partir do mês de julho. Esses são os principais reflexos da crise de energia, aumento dos juros e desvalorização cambial ocorridos durante o primeiro semestre deste ano.
Até o mês de abril, os lojistas paranaenses registraram grandes volumes de vendas à vista e crescimento do comércio por causa da estabilidade da economia. A previsão era de crescimento de 6% na economia paranaense. No entanto, o escândalo no Senado, a crise energética e a alta do dólar geraram instabilidade e a inadimplência aumentou. O mercado parou. O volume de negócios diminuiu entre 20% e 30%, aponta Nelson Paulo Cunha Castro Júnior, presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Paraná (FCDL-PR).
Julho deverá ser o mês mais crítico, com demissões e aumento de preços. As empresas não têm mais fôlego. A saída vai ser aumentar preços e demitir, prevê.
Após as últimas medidas do governo para conter a subida do dólar, Castro calcula que o crescimento volte a ser retomado após seis meses. Os setores que mais tiveram a crise agravada foram os que têm insumos básicos calculados pelo dólar, como o comércio de alumínio, ferro, aço, nylon e derivados do petróleo. Os reajustes no comércio deverão ser de 16% a 20%. As demissões poderão chegar, dependendo da continuidade da crise, a 10% do quadro total. Estima-se que em todo o Paraná existam cerca de 700 mil trabalhadores em lojas.
Na avaliação do supervisor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Cid Cordeiro, o mercado financeiro foi o grande prejudicado com a desvalorização do real, a crise da Argentina e a inconstância das bolsas de valores. Mas a economia real (representada pela produção e pelo emprego) não foi afetada diretamente no primeiro semestre. No primeiro quadrimestre, foram abertas 29 mil novas vagas no mercado formal paranaense o maior índice dos últimos dez anos.
A crise energética é que deverá trazer reflexos para o segundo semestre, já que surgiu por volta de abril. Haverá um impacto significativo, mas menor do que o que estava sendo avaliado, salienta. Cordeiro não prevê recessão. O desemprego vai aumentar, mas por causa da criação de novos profissionais desocupados no mercado de trabalho. Não por demissões, afirma.
Uma preocupação do economista é com o aumento das taxas de juros do Banco Central. Se a tendência de continuidade de aumento de taxas se efetivar, teremos então uma crise econômica séria no segundo semestre, avalia. A inflação deverá ser maior do que a prevista inicialmente pelo governo federal. Ela fechará no limite máximo de 6%. Num primeiro momento, o maior impacto foi da alimentação. No segundo semestre, teremos aumento de tarifas públicas e tabeladas (energia elétrica, combustível, telefone).
O setor da construção civil prevê aumento do preço do imóvel em mais de 30% por causa dos juros altos. Só não diz como o mercado descapitalizado absorverá altas nesse nível. Segundo o presidente do Sindicato da Construção Civil do Paraná (Sinduscon), Eliel Lopes Ferreira Júnior, as obras já iniciadas ou contratadas não serão paralisadas. Os contratos precisam ser honrados. Enfrentamos a alta do dólar e a crise energética. O que nos atinge com maior intensidade é o crescimento das taxas de juros.
Contribuiria para o aumento de preços dos imóveis, segundo os empresários, a data-base dos trabalhadores da construção civil, agora em junho. O setor ocupa formalmente no Estado cerca de 200 mil funcionários. Apesar da crise, não deverão ocorrer demissões significativas na construção civil.


