A mesada encolhe, as aulas de ginástica ficam mais espaçadas, o curso de natação é abolido, a prometida viagem à Disney acaba adiada. O aperto nos gastos domésticos pela classe média, para fazer frente à crise financeira, está chegando aos bolsos dos adolescentes. Habituados a frequentar festas, comprar CDs, locar fitas de vídeo e ir a lanchonetes e shoppings, eles começam a ver a lista de ‘‘regalias’’ reduzida pelos pais, que, para preservar a educação, cancelam viagens a Disneylandia, aulas de balé e outros ‘‘supérfluos’’.
O médico Wilson Roberto de Oliveira suspendeu, há pouco tempo, a mesada de R$ 50 que dava aos filhos adolescentes - de 11, 14 e 16 anos. Apenas com o pagamento do colégio particular e cursos de inglês, o médico calcula que gasta mensalmente R$ 680. ‘‘Para sustentar o padrão da família estou tendo que rebolar’’, diz Oliveira, que propôs pequenas economias aos filhos.
‘‘Não tomamos mais refrigerantes em todas as refeições e diminuimos a compra de guloseimas no supermercado. Também cortamos compras de roupas de marca e CDs, e idas constantes a fast food’’, revela. Desde o início do ano, o filho mais velho deixou de fazer natação e a caçula não vai mais ao balé. ‘‘Mas o de 14 anos continua aprendendo a tocar saxofone’’, conta ele, que há poucos meses desembolsava R$ 40 na compra de revistas semanalmente. ‘‘Cortei este gasto’’.
O médico diz que fica magoado toda vez que é obrigado a ‘‘regular’’ dinheiro aos filhos. ‘‘Mas não dá para liberar verba para todas as festas e lanchonetes que eles querem ir’’, argumenta. No próximo Natal, os três adolescentes devem ganhar dinheiro como presente. ‘‘No ano passado, dei um walkman e um aparelho de som. Neste ano, vou estipular um determinado valor. Assim, eles poderão gastar onde e como quiserem’’. A ida à Disney da filha caçula, prometida para o próximo ano, já está sendo negociada para o ano 2000.
Mas nem tudo são reclamações: neste ano Oliveira e a família mudaram-se para uma casa maior. ‘‘Gastei todas as economias neste investimento’’, conta. ‘‘O problema é que a crise financeira piorou nos últimos meses e muitos pacientes estão desmarcando as consultas’’, afirma o médico, que acredita num arrocho ainda maior no ano que vem.
A professora universitária Eliana Aparecida Bueno, tia e tutora de Alessandra Bueno, de 13 anos, também teve que cortar os gastos com supérfluos. ‘‘Limitamos a ida a restaurantes, a compra de roupas de grife e as viagens. Provavelmente não passaremos as férias na praia’’.
Eliana gasta mensalmente R$ 350 com o pagamento de colégio, curso de inglês e computação. ‘‘Em despesas com educação não dá para mexer porque é disso que depende o futuro dela’’. A mesada de R$ 50 está suspensa há seis meses. ‘‘Por causa dos juros altos, deixei de comprar a prazo’’.
Como a maioria das adolescentes, a principal reclamação de Alessandra é ter sido obrigada a parar de comprar roupas. Mesmo sem entender a mecânica dos juros e o sobe-e-desce das bolsas de valores, os jovens sentem na pele o reflexo da crise internacional e estão tendo que aprender a racionalizar seus hábitos de consumo.
Fernanda Poli, de 14 anos, já não vai ao shopping todos os sábados para comprar roupas. As festas também passaram a ser escolhidas a dedo pela adolescente. ‘‘Não dá mais para ir em todas. Não fui na do Óculos para ir na da Máscara. Abri mão de assistir ao show da Rita Lee para ir no do Pato Fu’’, conta.
Sua amiga Aline Mendonça, com a mesma idade, também anda fazendo ‘‘concessões’’. Ela conta que deixou de ir a vários lugares ‘‘por falta de grana’’. Mas diz que o aperto financeiro uniu mais as amigas e intensificou a troca de roupas entre elas. Para juntar dinheiro para o final de semana, Aline tem feito pequenos favores à mãe como ir ao supermercado, farmácia ou padaria. Nas festas, além dos R$ 15 do ingresso, leva R$ 5 para tomar refrigerante. E nada mais. Ana Carolina Amaral, de 15 anos, conta que, como tem um irmão de 13 anos, as despesas da família com colégio e inglês são dobradas. ‘‘A ordem lá em casa é economizar’’.

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