Confirmada a suspensão das atividades do frigorífico de Santo Antônio da Platina, o sentimento do mercado, ontem à tarde, era que novas indústrias do setor podem fechar até janeiro ou, na melhor das hipóteses, vão reduzir suas atividades.
O Sindicato da Indústria da Carne e Derivados no Estado do Paraná (Sindicarne/PR), através do seu presidente-executivo, Péricles Pessoa Salazar, acha que o fechamento do frigorífico expressa a crise enfrentada pelo setor.
Péricles Salazar aponta vários fatores para a baixa liquidez dos frigoríficos, ‘‘que estão operando no prejuízo’’, mas acha que a crise se agravou a partir do momento em que o Paraná foi declarado área livre de aftosa. ‘‘Não que isto não seja bom para o Estado, pelo contrário, mas, como o Mato Grosso do Sul ficou fora do circuito, o mercado pecuário ficou desregulado.’’
A conquista de área livre valorizou o boi sem que o preço da carne acompanhasse na mesma proporção. Salazar ressalva, no entanto, que os frigoríficos já vinham sofrendo um processo de descapitalização.
Segundo o presidente-executivo do Sindicarne, hoje paga-se R$ 39,00 pela arroba do boi e apura-se R$ 36,00 na venda da carne. A diferença - que vinha sendo coberta pela comercialização dos subprodutos e pelo couro -, está sendo parcialmente bancada pela indústria. É que os subprodutos ‘‘caíram de preço’’ e o couro foi taxado na exportação.
Segundo ele, isto fez com que os frigoríficos não mais tivessem como buscar recursos para financiar a margem negativa da carne.
O ideal, segundo Salazar, é que o frigorífico comprasse o boi a R$ 39,00/arroba e pudesse vender a R$ 41,00, tendo uma margem razoável de 5%. ‘‘Mas não estamos conseguindo isto, hoje, porque fontes fornecedoras como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul estão fora do mercado.’’
Ele acrescenta ainda que há muitos frigoríficos no Brasil e o mercado é fortemente concorrido. No Paraná, a capacidade de abate está acima da oferta. São 20 frigoríficos inspecionados (segundo périclres todos trabalhando no vermelho) e 165 abatedouros municipais que não têm o Serviço de Inspeção Federal (Sif), apenas o Serviço de Inspeção Municipal (Sim). Tantos abatedouros disputam uma oferta de 70 mil bovinos/mês; 30% dessas abates são considerados irregulares. A capacidade instalada de abates no Paraná é para 160 mil cabeças/mês.
Salazar também afirmou que o boi do Paraná é o mais caro do Brasil. O plantel do Paraná é pequeno. São 8 milhões de cabeças, cerca de 1 milhão são raças leiteiras. O plantel paranaense é pequeno para manter tantos frigoríficos do setor organizado ou do SIM, os abatedouros municipais.
É difícil calcular a capacidade ociosa do setor, segundo Péricles porque com o Mato Grosso fora do mercado, este sofreu deformação.
O Sindicato também não pode informar o número de frigoríficos fecharam as portas. Péricles explicou que quando isto acontece, um grupo de empresários assume a planta da massa falida e após certo período de ajustes os abates são retomados por outra razão social. Portanto, a indústria continua operando. Isto atende aos próprios interesses locais, de produtores que precisam abater seu gado e, às vezes, por interferência das prefeituras para manter a atividade gerando emprego e recolhendo impostos. A indústria muda de mãos mas é tocada por grupos que garantem a sobrevida da indústria.
Hoje são poucos os frigoríficos que estão há muito tempo nas mãos das mesmas pessoas que os fundaram.
Outro problema apontado por Péricles é a carga tributária. O Paraná tem o imposto mais caro: 4%, enquanto em São Paulo a alíquota é zero; em Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso é 2% e no Rio Grande do Sul 1%. Mas o Paraná disputa o mesmo mercado desses estados cuja carne é mais competitiva.

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