São Paulo - A crise econômica brasileira, que segurou as importações, e o câmbio depreciado, que favoreceu as exportações, foram os principais fatores para o superávit comercial recorde registrado pelo País no primeiro semestre de 2016, na avaliação de economistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado. E, segundo eles, os bons resultados tendem a continuar nos próximos meses, apesar dos recuos mais recentes do dólar ante o real.
O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) informou na tarde de ontem que o País teve um superávit comercial de US$ 23,635 bilhões no primeiro semestre, o melhor para o período na série histórica iniciada em 1989. Apenas no mês de junho o superávit foi de US$ 3,974 bilhões. O resultado ficou abaixo dos US$ 6,437 bilhões de saldo positivo de maio, mas manteve a tendência de superávits vistos desde março do ano passado, quando a balança comercial iniciou sua trajetória de recuperação.
O economista Bruno Lavieri, da 4E Consultoria, citou a alta do volume de exportações (quantum) e o câmbio favorável como fatores que justificam os bons resultados da balança comercial em 2016. Além disso, destacou a retração das importações nos primeiros seis meses deste ano, por conta da queda da atividade doméstica. "A exportação mostra ritmo bom e a importação é baixa em função da crise", comentou.
Conforme os dados do MDIC, as exportações somaram US$ 90,237 bilhões no primeiro semestre de 2016 e as importações totalizaram US$ 66,602 bilhões. Nos primeiros seis meses de 2015, por exemplo, as exportações haviam sido de US$ 94,329 bilhões e as importações, de US$ 92,101 bilhões.
"O desempenho das importações foi agravado pelo câmbio", comentou Lavieri. Na prática, com um dólar mais alto ante o real e a retração econômica no Brasil, a compra de produtos de outros países acaba diminuindo. "E neste ano e no próximo o saldo comercial continuará bom. Não temos uma razão para uma alta muito boa de importações e, ainda que nas últimas semanas tenhamos visto um câmbio um pouco mais apreciado, em termos históricos ele ainda favorece os exportadores", comentou.
A economista Gabriela Szini, da Tendências Consultoria Integrada, vai na mesma linha. "O fator que preponderou foi a queda nas importações. A alta das exportações também teve algum papel, mas o relevante foram as importações, prejudicadas pela atividade econômica", avaliou. Apenas em junho deste ano, na comparação com junho do ano passado, pela média diária, houve uma retração de 19,3% das importações, conforme o MDIC.
Em relação a maio de 2016, porém, o mês de junho indicou um aumento de 9,5% das importações pela média diária, com destaque para bens de capital. "Este resultado foi puxado por equipamentos mecânicos", citou Gabriela. "Isso pode ser um indício de retomada da economia, mas ainda não qualificaria como tendência. Será preciso esperar os próximos meses", ponderou.
Gabriela afirmou, no entanto, que o movimento cambial mais recente, que conduziu o dólar para patamares mais baixos, próximos de R$ 3,20, poderá alterar o cenário. "O dólar mais baixo pode ter um impacto, sim, e o ritmo de retomada das exportações pode não continuar. Estamos revisando projeções de câmbio e há o risco de um saldo menor", comentou. Ainda assim, o saldo positivo para 2016 está longe de ser ameaçado por um dólar mais baixo. Atualmente, a Tendências projeta superávit comercial de US$ 54,8 bilhões para o ano. No boletim Focus do Banco Central, a mediana das previsões do mercado aponta para superávit de US$ 50,76 bilhões este ano.
O economista-chefe da Parallaxis, Rafael Leão, vê ainda uma retomada incipiente das exportações de setores ligados à indústria. "O câmbio já pode começar a ter um efeito de substituição das importações e de favorecimento das exportações brasileiras no setor industrial", comentou, destacando o aumento das vendas nos setores de transporte, químicos e metalúrgicos em junho. Apesar da melhora nestes setores, o quadro geral da balança comercial ainda está muito relacionado à recessão econômica do País, na avaliação de Leão. "O efeito cambial desde 2015 e o momento econômico explicam o forte superávit", afirmou.

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