Crise do algodão já fecha indústrias
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sábado, 14 de dezembro de 1996
Venilson Ferreira<br> Agência Estado 
São Paulo - A oferta de algodão em caroço no próximo ano será suficiente para atender à capacidade de esmagamento de apenas duas das cinco grandes indústrias que utilizam esta matéria-prima para produção de óleo. A afirmação é de Nelson De Maria, diretor da Divisão de Óleos da Esteve & Irmãos, empresa que está investindo junto a produtores do Paraná e Mato Grosso do Sul para incentivar o plantio do girassol a fim de não paralisar a atividade de sua fábrica localizada em Rancharia (SP). A exceção entre as indústrias de óleo de algodão é a Maeda, com fábrica em Itumbiara (GO), que trabalha com 60% de algodão de produção própria.
Segundo Nelson De Maria, das dez grandes indústrias de óleo de algodão existentes no País cinco deixaram que processar o produto neste ano. A Coinbra deixou parada a fábrica de Londrina e operou com menos de 50% da capacidade na fábrica de Paraguaçú Paulista (SP). A Sanbra também paralisou as atividades em sua fábrica de Maringá, enquanto a Esteve Irmãos fechou uma fábrica, mas duplicou a capacidade de outra, confiante no aumento da oferta do girassol. A Esteve presta assistência técnica, fornece as sementes e garante a compra de toda produção de girassol dos produtores que participam do projeto.
A retração na oferta de algodão em caroço é reflexo da queda da área plantada com a cultura, por causa de crise enfrentada pelos produtores na venda de algodão em pluma, devido à concorrência com o produto importado, a taxas de juros do mercado internacional com 360 dias para pagamento. Asdrubal de Carvalho Jacobina, técnico especialista em algodão na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), afirma que a última estimativa da empresa, em fase de conclusão, sinaliza uma redução ainda maior na área plantada com algodão na safra 96/97, que deve ficar em 620 mil hectares, contra os 742 mil hectares da estimativa divulgada no início de novembro.
Na safra passada, a área plantada já havia sido a menor dos últimos anos, com 977 mil hectares, que corresponde a cerca de 24% dos 4,1 milhões de hectares cultivados na safra 76/77. Este ano, além da baixa oferta, estimada em 550 mil toneladas de algodão em caroço, as indústrias enfrentaram concorrência dos pecuaristas, que adquiriram cerca de 120 mil toneladas para compor a ração do gado confinado, utilizando a oleaginosa como alternativa ao farelo de soja.
Antonio Cruz Mendes, gerente de compras da Coinbra, afirma que indepedentemente da queda na oferta de matéria-prima a indústria de óleo de algodão há vinha enfrentando problemas no mercado internacional por causa da concorrência com outros óleos. A Coinbra era maior produtor nacional (fábricas que eram da Gessy Lever) e destinava 90% da sua produção para a exportação.
Segundo Cruz Mendes, o óleo de algodão tinha algum diferencial no mercado internacional por causa da preferência nos países árabes, o que resultava num ágio sobre o preço do produto. Agora, diz ele, o produto concorre em igualdade de condições com o óleo de soja, de palma e girassol. No caso das indústrias voltadas para o mercado interno, a maioria vende a gordura hidrogenada para a indústrias de alimentos, principalmente para a fabricação de biscoito. A Coinbra deve operar sua fábrica em Paraguaçú Paulista, em 97, em alguns meses com algodão (dependendo da oferta). A maior parte do ano Coinbra irá esmagar soja -- apesar de a fábrica ser específica para o algodão -- a fim de reduzir os custos fixos.


