Crise deve aquecer mercado de consertos
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sábado, 18 de julho de 2015
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 
Londrina - Os brasileiros gastaram R$ 6,4 bilhões em consertos de itens domésticos no ano passado, valor que deve aumentar em 2015 devido à crise econômica, que torna mais difícil a reposição de produtos com problemas por novos, segundo estudo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de São Paulo (Fecomercio-SP). O encarecimento do crédito, a inflação, o endividamento e a corrosão da renda dos trabalhadores devem fazer com que o consumo diminua principalmente para bens de maior valor.
As famílias de todas as camadas socioeconômicas recorrem a consertos. Porém, enquanto a classe E desembolsou R$ 36, a classe A gastou R$ 393, quase 11 vezes a mais, conforme a Fecomércio-SP. Pelo alto preço, os serviços mais procurados em 2014 foram os de reparo em móveis (R$ 1,4 bilhão), de televisores (R$ 1,0 bilhão) e de geladeiras (R$ 860 milhões).
Assessor econômico da Fecomercio-SP, Guilherme Dietze afirma que o estudo, feito com base na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi feito para analisar o comportamento do consumidor em período de crise. A última vez que a entidade havia feito a análise foi no biênio 2008 e 2009, quando estourou a crise financeira mundial, com efeitos em todas as camadas da população. "O diagnóstico é que a crise é macroeconômica e atinge a todos, porque as empresas que precisam fazer cortes também mandam embora quem tem os salários mais altos", diz.
A retomada do crescimento econômico deve ocorrer somente após 2016 e, até lá, ao menos o setor de consertos deve ficar mais aquecido. "O aumento do preço pago pelo serviço deve ocorrer pela regra básica de oferta e demanda. Em todas as crises, há sempre setores que são beneficiados", diz Dietze. Ele cita os setores de eletrodomésticos, móveis e veículos, que não entrou no estudo, como alguns dos mais afetados pela redução da demanda.
Por outro lado, o assessor econômico da Fecomércio-SP acredita que pode ocorrer certa geração de postos de trabalho no segmento de reparos. Outra vantagem, diz a coordenadora do projeto de extensão Saúde Financeira da Família da UniFil, Maria Eduvirges Marandola, é a possibilidade da recuperação do conceito de consumo consciente por parte do brasileiro. "Aprendemos nos últimos anos, pela oferta de crédito facilitado, que era simples adquirir algo, sem pensar em consertos. Com o crédito mais caro, o endividamento alto, é preciso buscar alternativas", diz.
A cultura do descarte, completa Maria Eduvirges, evita que o consumidor tenha o saudável comportamento financeiro do reaproveitamento. "O grau de endividamento está alto e ultrapassa 50% da renda em algumas camadas da população", conta.
LÓGICA
O proprietário da Eletrônica Mossoró em Londrina, Hélio Trindade, tem 25 anos no ramo de assistência técnica a produtos eletrônicos e relembra de outras crises que fizeram com que o consumidor trocasse a compra pelo conserto. "A crise atual é recente e ainda não senti diferença, mas antigamente era assim. Sempre que o crédito fica difícil ou que o valor do dólar aumenta, a lógica é a pessoa consertar o que já tem."
Trindade afirma que, mesmo assim, precisa persuadir o cliente a fazer um conserto pela mudança de cultura dos últimos anos, impulsionada pelo aumento da renda e pelo comércio aquecido. "Se um micro-ondas quebrava e o conserto ficasse em R$ 100, a pessoa preferia comprar um novo por R$ 300. Ainda tenho de convencer a pessoa de que o conserto deixa o eletrônico tão bom quanto um novo."



