Rio de Janeiro
O ágio sobre o valor das privatizações corre sérios riscos de encolher. Esta é a expectativa do ex-ministro do Planejamento e deputado federal Roberto Campos (PPB-RJ), e da maioria dos especialistas de mercado. A previsão é de que a crise das bolsas de valores afete o nível de preço das companhias, que já registraram forte queda no valor de mercado depois do caos nos pregões. O alto déficit em conta corrente do País pode voltar a incomodar e inibir os investimentos estrangeiros.
A primeira e maior vítima da crise deve ser a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), que irá a leilão no próximo dia 5, pegando a fase de acomodação do mercado acionário internacional. Os especialistas estimavam ágio de 50% sobre o preço mínimo de R$ 1,772 bilhão do bloco de controle, mas agora alguns já projetam ágio de 25% apenas.
Esta é a previsão do economista da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e chefe do Departamento Econômico do Banco da Bahia, Eduardo Velho. A expectativa é de que os investidores aproveitem o caos das bolsas para derrubar o preço das estatais na privatização.
O valor de mercado da CPFL na Bovespa caiu de R$ 4,046 bilhões no dia 30 de setembro, ponto mais alto depois da recuperação da crise da Tailândia em julho, para R$ 3,076 bilhões na segunda-feira, ponto mais baixo das ações com o caos provocado por Hong Kong. O valor de mercado não determina o preço da empresa, mas numa conta simples traduz as estimativas do mercado em relação à taxa de crescimento para a companhia.
Roberto Campos acredita que haverá uma queda nos investimentos nas bolsas e, com isso, uma redução no interesse pelas privatizações. Ele ressalta que em termos de volume de recursos já registrados nos outros leilões, a entrada de dinheiro estrangeiro nas novas privatizações será ‘‘menos exuberante’’. O ex-ministro destaca que o País não deve desacelerar o processo e que o ideal seria acelerar. Uma possibilidade de contra-ataque seria a flexibilização da forma de pagamento. ‘‘Pode-se aceitar moedas podres’’, sugere.
Velho destaca que investidores podem começar a ver o País como um alvo fácil para ataques especulativos. ‘‘Hong Kong provou que alto nível de reservas não defende nenhuma economia’’, ressalta.
Parâmetro Todas as estatais perderam valor de mercado nas bolsas. Este sem dúvida é um dos parâmetros dos investidores. A Telebrás saiu de R$ 50,529 bilhões para R$ 36,302 bilhões do último dia de julho até segunda-feira. Petrobras perdeu neste mesmo período 30,37% do seu preço em bolsa. A carteira teórica do Bovespa perdeu cerca de R$ 59 bilhões com o auge dessa crise.
O analista de investimentos da Sirotsky & Associados Ricardo Hinrichsen lembra que quem vai investir na compra de controle de empresas analisa muito e leva em conta mais do que uma crise de bolsa. Ele admite, no entanto, que ninguém vai resistir a usar a instabilidade para baixar o preço da oportunidade de negócio.

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