A crise do abastecimento de milho tem mais 80 a 90 dias pela frente. As primeiras colheitas, em meados de janeiro, devem acalmar o mercado
Oswaldo Petrin
De Londrina
As importações de milho e trigo da Argentina, em ritmo lento a partir deste mês, fecham o ano com um número alto, porém aquém das estimativas anteriores, principalmente no caso do milho, em que se previu mais de 1,8 milhão de t até esta época. O próprio Ministério da Agricultura, nas suas previsões de julho, chegou a projetar importações entre 2,5 e 3 milhões de toneladas.
Embora a escassez do produto no mercado interno tende a se agravar até janeiro - e as tradings e cooperativas acham que ‘‘o pior ainda não passou’’ -, para os analistas do mercado e técnicos do governo, é possível administrar a pouca oferta até início do ano. Há milho e trigo de baixa qualidade que, numa emergência, podem ser adicionados na composição da ração animal.
Se o tempo correr bem, na segunda quinzena de janeiro começa entrar milho novo. As primeiras colheitas vêm da região do Lago Itaipu, do Sudoeste e Oeste do Paraná, segundo o analista de mercado da Granoeste, Camilo Motter. As regiões Sul e Norte terão colheita ‘‘para valer’’ a partir de março.
Até lá, a Associação Paranaense de Suinocultores (APS) prevê pequena alta dos preços, mas pondera que há muitas opções. As indústrias de ração confirmam que podem contar com uma maior oferta de milho de qualidade inferior, prejudicado pela geada, e triguilho, resultado do trigo igualmente prejudicado pela geada e seca.
O quadro é de escassez, mas um aumento acentuado das importações está descartado, principalmente porque o preço do milho argentino, somando todos os custos da internação, não é competitivo com os preços do produto nacional.
Até a primeira semana de outubro, as importações de milho da Argentina haviam chegado a 1,4 milhão de toneladas. No mesmo período de 99, as importações somavam 400 mil toneladas.
O Brasil assumiu a liderança nas importações de milho argentino neste ano, desbancando o Egito (1,1 milhão de t) e a Espanha (950 mil), líderes em 99. Os argentinos já assumiram compromisso de venda de 8,7 milhões de toneladas neste ano (Vaivém das Commodities).
Mercado Para atravessar rapidamente o período crítico que vai até janeiro, as indústrias de ração contam com um forte aliado: as necessidades dos produtores de aproveitar os bons momentos de mercado. Depois de março o preço do milho desaba. Tanto que a preocupação da Faep, neste momento, é que a Conab adote estratégia para enxugar o mercado para reduzir os efeitos da pressão da oferta.
Não é à toa que os produtores estão com pressa no plantio do milho. O mercado futuro da BM&F indica R$ 8,16 por saca para novembro. Quem tiver produto disponível em janeiro deve receber R$ 7,05. Em março, a saca cai para R$ 5,80.
Trigo O Brasil é disparado o maior importador de trigo argentino. Até a primeira semana de outubro, os dados mostravam que os brasileiros devem ficar com 7 milhões de toneladas dos pedidos de 10,9 milhões recebidos pelos argentinos nesta safra (Vaivém das Commodities). Os brasileiros já disputam o trigo da safra 2000/1 produzido pelos nossos vizinhos do Sul. Informações do mercado indicam que os pedidos brasileiros já somam 400 mil toneladas para a próxima safra. Os argentinos produzem 16 milhões de toneladas por ano.
O quadro indicativo das previsões de plantio no próximo ano - apontando para ampliação de área de milho na safrinha -, sugere que as importações de trigo tendem a continuar. A menos que até lá o governo resolva criar um planto de incentivo ao trigo. Isto chegou a ser cogitado pelo ministro Pratini de Moraes para a última safra de inverno, mas acabou não acontecendo.
O rigor do último inverno ao invés de desestimular o milho em favor do trigo no próximo ano, pode ter efeito contrário, segundo analistas. É que o custo de produção do milho é menor e as chances de mercado são melhores para a safrinha. Se o inverno for realmente rigoroso como este ano, todos os produtos se tornam vulneráveis. Com isso, a dependência da Argentina em relação ao trigo deve continuar, apesar de o Brasil reunir todas as condições técnicas para aumentar a produção de trigo e voltar a perseguir a auto-suficiência.

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