O dólar comercial manteve alta ontem e fechou no patamar mais alto do Plano Real, vendido a R$ 2,315, com alta de 1,27%. Maior desconfiança sobre a capacidade de a Argentina negociar o swap (alongamento) da dívida e honrar seus compromissos externos associada à falta de definições do governo brasileiro sobre o racionamento de energia voltaram a aterrorizar o mercado e provocar a disparada da moeda.
O dólar precificou ontem principalmente expectativas de que, por causa do racionamento, o governo poderá vir a autorizar aumento de tarifa de energia, como forma de estimular mais investimentos pelas empresas e forçar o consumidor a economizar. Como eventual elevação dos preços de energia poderá causar aumento de inflação, o mercado também acredita que o Copom poderá ser mais agressivo em sua eventual decisão de elevar a taxa Selic, na reunião que acontece nos próximos dias 22 e 23.
Ontem, o ex-presidente argentino Raúl Alfonsín, atual presidente da União Cívica Radical (UCR), um dos pilares da Aliança que sustenta o governo, disse em São Paulo que o projeto de lei que securitizaria o pagamento da dívida externa com a arrecadação tributária não será aprovado pelo Congresso como Domingo Cavallo quer. ‘‘Trata-se de um sistema de muito risco para a Argentina.’’ Por isso, Alfonsín acredita que o projeto de lei poderá nem mesmo ser enviado à Câmara.
Os usuais nervos de aço dos operadores estão à flor da pele. Mais do que Argentina – ainda que permaneça como fonte de alto risco –, os investidores ontem concentraram suas HPs na reavaliação do crescimento do PIB brasileiro para este ano, do déficit da balança comercial, da inflação e da trajetória da taxa Selic no curto e médio prazos.
O resultado dos recálculos só elevou a preocupação com a Bolsa, que sofrerá duplamente: pelo impacto negativo da conjuntura sobre as expectativas e pelo real acréscimo de custos e possível redução de lucros que sofrerão as empresas de mercado aberto. O Ibovespa fechou em baixa de 2,48%, para 14.132 pontos. O volume financeiro somou R$ 408,784 milhões. O índice futuro para junho, negociado na BM&F, recuou 2,08%, para 14.140 pontos no pregão regular.
A pouco mais de uma semana da próxima reunião do Copom, o mercado está elevando sua projeção de juros futuros. Não há ainda uma opinião formada entre os operadores sobre qual será a decisão do Copom. Mas há uma impressão generalizada de que a idéia de juros em queda foi um sonho de verão que se dissipou no início do outono.
(Márcia Pinheiro, Mário Rocha e Silvana Rocha)

mockup