Crise de energia compromete aquecimento
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sábado, 19 de maio de 2001
Agência Estado De São Paulo 
O plano de racionamento de energia elétrica, que começa a valer a partir de 1º de junho nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do País excluindo apenas os Estados do Sul e do Norte poderá afetar neste ano a sazonalidade do ritmo de atividade econômica, que normalmente é mais favorável a partir do segundo semestre. Nos últimos dez anos, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no segundo semestre do ano foi, em média, 4,3% maior do que o registrado no primeiro, segundo os cálculos da economista Caroline Silveira, da Tendências Consultoria Integrada.
Com menos energia para rodar as fábricas e impulsionar o ânimo dos consumidores para ir às compras, economistas e empresários concordam que o comportamento normal do ritmo de atividade estará prejudicado. Alguns setores até começaram a refazer as projeções de produção e vendas para o ano e não depositam mais as fichas no segundo semestre para recuperar os efeitos negativos no consumo já provocados pela alta dos juros e do câmbio. Mas os números no ano ainda tenderão a ter saldo positivo por causa do bom desempenho do primeiro trimestre.
Desde o Dia das Mães, a Loja Cem, especializada em eletroeletrônicos, por exemplo, registra taxa de crescimento de vendas diária inferior à do dia anterior. Por conta disso, a rede reduziu as previsões de vendas para o ano e para os semestres. Inicialmente, a estimativa era fechar 2001 faturando 30% a mais do que no ano anterior, com crescimento de 35% no primeiro semestre ante o mesmo período de 2000 e de 25% no segundo semestre. Agora a companhia calcula que irá ampliar em 20% sua receita no ano, com acréscimo de 25% no primeiro semestre ante o mesmo período do ano passado e apenas 15% no segundo semestre.
O ritmo de consumo piorou após o início dos rumores de que haveria o apagão. Como nós compramos as mercadorias a cada semana, naturalmente reduzimos as quantidades encomendadas, diz o supervisor-geral da Lojas Cem, Valdemir Colleone.
O setor de embalagens como um todo, um eficiente termômetro da atividade, reduziu de 5% para 1,5% a 2% a expectativa de crescimento para o ano, segundo o presidente da Associação Brasileira da Embalagem (Abre), Sérgio Haberfeld. O ritmo normal de crescimento de vendas do primeiro para o segundo semestre vai estar comprometido, diz ele. Para o superintendente da Abividro, Lucien Belmont, a incógnita do racionamento é saber como vai se comportar o consumidor que compra no supermercado a cerveja envasada no vidro em que ele produz.
Na análise de Colleone, os rumores do apagão e as suas consequências, como o risco maior de desemprego, mexeu na auto-estima do consumidor e na motivação de assumir novas dívidas. Os problemas anteriores, como a crise argentina, a disparada do dólar e a alta dos juros, que estavam na órbita do mercado financeiro. A agora a crise energética passou a afetar a economia real.
Com o racionamento de energia, o problema atinge, na veia, o lado real da economia, concorda o economista-chefe do Lloyds TSB, Odair Abate. Ele acrescenta à expectativa menos otimista do consumidor dois ingredientes para justificar uma demanda mais fraca.
Um deles é o fato de o índice de recomposição salarial não tender a superar neste ano a inflação que, por sua vez, deverá ultrapassar as projeções iniciais. Com isso, haverá perda de renda e o custo do crédito será mais elevado, ressalta o economista, ponderando que o risco de emprestar dinheiro e recebê-lo de volta será maior. Será uma combinação tripla salário real menor, perspectiva de emprego menos favorável e custo de crédito maior para reduzir o consumo privado.
O presidente da Associação Brasileira da Empresas de Leasing (Abel), Antônio Bornia, diz que, sem dúvida, o racionamento de energia vai trazer impacto ao crescimento econômico maior do que os efeitos vindos da alta do dólar ou do aumento da taxa de juros. De acordo com ele, a crise do setor elétrico também atinge a economia num prazo mais curto e de maneira mais intensa do que os outros problemas.
Para Bornia, no entanto, o alívio na conta do ano deverá vir dos cinco primeiros meses de 2001 em que a economia brasileira registrou um bom desempenho vão ter agora um peso ainda mais positivo. Essa avaliação é compartilhada por Paulo Saab, presidente da Eletros, associação que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos. No primeiro trimestre, o setor registrou crescimento de vendas industriais de 11% em relação ao mesmo período de 2000 e a perspectiva é manter a previsão do ano de crescer 6%. Para Saab, o bom desempenho do primeiro trimestre irá garantir o cumprimento da meta estabelecida.


