Itaperuna, RJ - A crise da Parmalat começa a causar estragos na região Noroeste do Estado do Rio, fornecedora de leite para a fabricante de laticínios italiana. Em Santo Antônio de Pádua, a falta de pagamento aos fornecedores já se reflete em inadimplência no comércio e atrasos em pagamentos de salários. Em Itaperuna, teme-se que uma crise duradoura possa resultar no ''maior colapso social desde o fim do ciclo do café'', em uma comparação feita pelos itaperunenses.
''Já atrasei o décimo-terceiro dos meus funcionários, entrei no cheque especial e estou comprando gasolina e insumos fiado'', enumera o produtor João Carlos Moreno, de Santo Antônio de Pádua. Sua situação é semelhante à de centenas de produtores locais, que não receberam o pagamento pelo leite fornecido em novembro. ''A situação está ficando caótica, com aumento da inadimplência entre os fornecedores de insumos, e vai piorar ainda mais se a Parmalat não cumprir a promessa de pagar no dia 17'', alerta o chefe de gabinete da prefeitura, Wagner Oliveira de Souza.
Santo Antônio de Pádua tem 480 produtores de leite, setor que emprega diretamente cerca de 3 mil dos seus 40 mil habitantes. Apenas 60% deles -os que ganham abaixo de R$ 500 por mês - foram pagos pelo fornecimento de leite em novembro. ''Estamos sem dinheiro em caixa e com R$ 422 mil em leite em pó estocados por falta de compradores'', reclama a diretora-presidente da cooperativa local, Valéria Kezen Leite.
A cooperativa de Santo Antônio de Pádua nem chega a ser tão dependente da Parmalat, explica Valéria, mas a crise que se seguiu ao calote da multinacional afastou os compradores de leite em pó. ''A produção estava praticamente vendida e, quando estourou o problema, o mercado ficou uma bagunça'', reforça Souza, da prefeitura, que, assim como o prefeito, também é produtor de leite.
Por sinal, a força do leite na região pode ser verificada na política local. O prefeito de Itaperuna, maior município do Noroeste Fluminense, Péricles Olivier de Paula (PP), também vem da indústria leiteira. Assim como os prefeitos dos outros 11 municípios da região, localizada a cerca de 300 quilômetros do Rio de Janeiro, em uma ponta do Estado que faz divisa com o Espírito Santo e Minas Gerais. São, no total, 12 mil famílias envolvidas diretamente com a produção de leite.
Ao contrário de Santo Antônio de Pádua, Itaperuna tem uma dependência excessiva da Parmalat e pode viver uma enorme crise social caso a crise perdure por muito tempo, lembra o prefeito Olivier de Paula. ''Essa geração talvez não tenha assistido nesta região uma crise social desta ordem'', analisa. O município tem mais de 1,2 mil produtores de leite, em uma população de quase 90 mil habitantes. ''O fechamento da fábrica da Parmalat poderia deixar entre 15 mil e 20 mil pessoas sem renda na cidade''.
A hipótese de fechamento definitivo da unidade, porém, é considerada remota. Mas uma crise longa, com troca de controle da fábrica poderia provocar mais atrasos no pagamento e ampliar as dificuldades dos pequenos fornecedores, lembra o diretor comercial da Cooperativa Agropecuária de Itaperuna (Capil), Júlio Montes Neves. ''Esse problema pode se arrastar por meses, mantendo o clima de insegurança'', afirma. Clima que é sentido em conversas informais na cidade: do recepcionista do hotel ao garçom do restaurante; todos demonstram preocupação com o problema.
Toda a família de Montes Neves trabalha no ramo, o que aumenta sua preocupação. Seu irmão, Jamir César, acredita que a empresa vai honrar os compromissos. ''É igual vaca ruim, que segura o leite, mas depois vai soltando aos poucos'', compara. Com 60 anos de idade, Jamir produz entre 80 e 100 litros de leite por dia de 16 vacas, sem empregados - conta apenas com a ajuda do filho, quando está de férias. ''Não posso pagar ninguém''.

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