Crise da indústria não atinge pecuária
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sexta-feira, 23 de abril de 1999
Vânia Casado 
A crise dos frigoríficos não está atingindo os pecuaristas no Paraná. Enquanto os frigoríficos vivem sua pior crise e culpam o excesso de carga tributária, a pecuária de corte dá sinais de recuperação da crise iniciada há quatro anos. Auxiliados pelo clima favorável dos últimos anos e pelo suporte financeiro gerado pela agricultura, os pecuaristas estão numa situação privilegiada à espera da volta da dolarização nas cotações, avaliou o médico-veterinário Adelio Borges, técnico do Departamento de Economia Rural, órgão da Secretaria da Agricultura.
A crise denunciada pelos frigoríficos precisa ser debatida entre todos os setores da cadeia produtiva da carne na Câmara Setorial de Pecuária de Corte, criada pela Secretaria da Agricultura, sugeriu Borges. O técnico admite que a carga tributária dos frigoríficos é o diferencial para a perda de competitividade com outros Estados, que reduziram o ICMS da carne. E que a desvalorização cambial só agravou a crise porque estimulou o pecuarista a dolarizar novamente o preço do boi, como ocorria antes do Real.
Com a escassez de animais para o abate, os frigoríficos paranaenses perderam escala e a rentabilidade baixa não permite a manutenção das plantas industriais. O Sindicato da Indústria da Carne ameaça com demissão em massa se não houver um socorro ao setor, sob a forma de redução ou isenção tributária como ocorreu em outros Estados. Se nada for feito, o setor organizado dos frigoríficos estará quebrado em pouco tempo, disse Borges.
O técnico defende algum tipo de auxílio aos frigoríficos porque o setor gera muitos empregos. Segundo Borges, a pecuária gera pouco emprego na propriedade, mas quando o boi vai para o frigorífico movimenta uma cadeia produtiva enorme. A cada 350 cabeças, são gerados 2.750 empregos em toda a cadeia, afirmou.
Enquanto o Estado não consegue a condição de área livre de febre aftosa, que vai deflagrar uma corrida às exportações, Borges defendeu o auxílio ao setor com a exploração de nichos de mercado. Para isso, deveria ser criado um fundo que seria aplicado no marketing da carne bovina, com o objetivo de elevar o consumo do produto, explicou. Aliás, a queda da demanda pela carne bovina é outra reclamação dos frigoríficos.
Por outro lado, o grande trunfo dos pecuaristas paranaenses para sair da crise foi a diversificação entre pecuária e agricultura. Segundo Borges, os lucros obtidos com a soja, mandioca, milho e café nos últimos anos permitem a retenção do boi no pasto. Enquanto a relação de troca estiver desfavorável, com o boi cotado a R$ 28,00 a arroba e o bezerro a R$ 40,00 a arroba, dificilmente o pecuarista vai desovar seu rebanho, frisou o técnico.
Ele ressaltou no entanto que o pecuarista bem-sucedido está de olho no rebanho e investindo no aumento de produtividade, enquanto o pecuarista de final de semana está saindo fora da atividade. Isso porque atualmente a administração eficiente exige investimentos em manejo de solos, de pastagens, genética e cruzamentos industriais. Os profissionais liberais que se dedicavam à atividade estão saindo fora porque não têm tempo para administrar corretamente a propriedade, observou.
O acerto dos pecuaristas na atividade agrícola-pecuária está evidente no crescimento do rebanho paranaense, que foi o único que cresceu. Enquanto o rebanho de bovinos no Estado cresceu em dois milhões de cabeças nos últimos cinco anos passando de oito milhões para dez milhões de cabeças, o rebanho bovino no País caiu de 170 milhões para 153 milhões de cabeças no período.


