Crise compromete safra, prevê Faep
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de setembro de 1998
Da Redação 
A economia agropecuária vai sentir a crise mundial de forma direta e indireta; de imediato e a longo prazo. É o que prevê o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ágide Meneguette. O dirigente rural cita vários pontos que esbarram na crise: a redução do mercado externo em face de dificuldades nos países importadores, caso da Rússia e a Ásia e a escassez de financiamento à produção. A elevação de juros - por exemplo - corresponderá a alta de insumos. E os preços de dois produtos importantes na pauta da exportação - a soja e o açúcar - já assinalam queda.
Ágide Meneguette também está prevendo redução no volume de recursos para o financiamento da safra. O próprio governo autorizou o uso de recursos oriundos da 63 caipira em títulos com garantia cambial.
A crise mundial, seja qual for o seu desfecho em nosso país, trará sérios problemas para a comercialização dos produtos agropecuários, tanto no mercado interno, como no mercado externo. Como a debacle é generalizada, o mercado mundial estará totalmente conturbado no momento de vender a safra de verão, que está sendo plantada. Os mercados estão se fechando, até por falta de recursos para comprar. A Ásia, que tem se constituído num grande comprador de produtos brasileiros, como soja, frango, açúcar e sucos, está fortemente abalada e vai reduzir suas compras.
Esta é a análise do presidente da Faep, Ágide Meneguette. A Rússia, que havia se transformado num bom mercado para proteínas animais e açúcar, por exemplo, não tem condição de comprar mais nada, já que quebrou. Para agravar a situação, os Estados Unidos e a União Européia aumentaram significativamente a sua produção de grãos, para repor os estoques estratégicos. Com a retração das compras, até nos mercados internos desses países, e com o estreitamento dos outros mercados, significa que a guerra das vendas vai ser acirrada, prevendo-se uma grande queda de preços- afirma.
Comercialização Portanto, o horizonte para a comercialização da nossa safra não é nada alentador. Os preços dos produtos de exportação já assinalam queda, no caso do açúcar e da soja. Imediatamente, contudo, a agropecuária vai estar sentindo a crise. Primeiro, de forma indireta, com a elevação dos juros, que corresponderá a uma elevação no preço dos insumos utilizados no plantio.
Outra observação do presidente da Faep, em artigo sobre a crise mundial e a agropecuária: Embora o governo federal tenha afirmado que não haverá falta de recursos para o financiamento da safra, as medidas adotadas mostram o contrário. Em primeiro lugar haverá um menor volume de recursos disponíveis, uma vez que o próprio governo autorizou a aplicação das captações de dólares para financiamento da 63 Caipira integralmente em títulos com garantia cambial. Ele pergunta: Numa crise dessas, que banco não vai utilizar essa oportunidade?.
Orçamento Com a alta de juros de mercado, o governo vai utilizar mais recursos orçamentários para equalizar os juros fixos do crédito rural. Como esses recursos não são elásticos, significa uma possível redução no montante da oferta aos agropecuaristas.
Além disso, o problema crucial ocorrerá na comercialização, que se dará no início do próximo ano. O orçamento de 1999 prevê uma redução nos recursos destinados aos financiamentos oficiais de EGF e para equalização, conforme apurou a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Esta redução será em torno de 17%, caindo de R$ 1 bilhão e 446 milhões para R$ 1 bilhão e 231 milhões.
Até os recursos destinados às aquisições diretas de produtos agrícolas por parte do governo e para o Prêmio de Escoamento de Produtos (PEP) vão encolher no próximo orçamento, caindo de R$ 303 milhões par apenas R$ 70 milhões.
Portanto, o poder de intervenção do governo no mercado interno vai ser menor, o que é preocupante, dentro desse quadro de hecatombe mundial. Ao invés de reduzir seus recursos para proteção da agropecuária, o governo deveria e estar aumentando as verbas de orçamento oficial de crédito para reforçar a sua capacidade de evitar um desastre similar ao que ocorreu em 1995, finaliza Ágide.


