O pacote econômico vai penalizar ainda mais os setores produtivos. Pelas previsões, 1998 termina pior que o ano de 97. Mas, se o governo tivesse feito os ajustes no Plano Real três anos atrás, quando a crise já se desenhava, teria havido tempo para contornar a crise sem sacrificar tanto a economia.
A opinião é do economista Luiz Antônio Fayet, membro do Conselho de Economia do Paraná, ex-deputado federal e ex-presidente do BNDES. Em artigo publicado no Boletim da Faep (‘‘Crise Cambial - Trocando em miúdos’’) o técnico traduz para uma linguagem de fácil compreensão os fatos que deram origem à atual crise na economia e seu impacto na produção primária e no agronegócio.
Há pouco mais de um ano que um grupo de países do Leste da Ásia, incluindo o Japão, desencadeou uma crise causada por desperdícios e investimentos feitos de maneira descontrolada. Como consequência, muitas empresas quebraram, inclusive bancos e corretoras de negócios e os aplicadores de dinheiro tiveram grandes perdas. Isto assustou todos os aplicadores internacionais que passaram a tirar seu dinheiro de países com economias frágeis, colocando-o em países mais seguros, como os Estados Unidos.
O Brasil é um desses países com economia desequilibrada e que está enterrado em dívida junto a outros países, consequentemente não merece muita confiança. Até porque, em 1985, o governo Sarney nos colocou numa moratória (concordata) internacional, suspendendo todos os pagamentos.
Com esta fuga de dinheiro - explica Fayet -, o Brasil passa a ter dificuldades para cumprir compromissos internacionais e rolar a dívida externa.
Assim, a crise brasileira tem origem no próprio descontrole e na inércia de suas autoridades e, por esta razão, está em perigo.
Fayet toma o exemplo de 97: somando o que vendemos para o exterior, mais os investimentos, juros, etc, que entram no País e, deste valor, subtraindo o que tivemos que pagar por importações, juros, dividendos, etc, faltaram 33 bilhões de dólares.
Como isto foi compensado? Através de tomadas de empréstimos e aplicações internacionais. Pelas previsões, 1998 termina pior. E assim por diante.
Consequentemente, dependendo de dinheiro internacional para rolar esta situação agravada desde 1994. Só para confirmar, comparamos nosso País com a Austrália, que é fortemente dependente de relações comerciais com países asiáticos em crise. No entanto, está fora do perigo de uma crise cambial, simplesmente porque não é um país endividado.
Tamanho da dívida Para se ter idéia do tamanho do problema, só a dívida externa das empresas privadas no exterior, que era de 42 bilhões de dólares em 1992, passará dos 192 bilhões neste ano.
Mas para que veio esse dinheiro?
Parte veio como investimento para construir novas fábricas ou para comprar empresas existentes. Mas a parte maior veio como financiamento de compras feitas no estrangeiro e/ou para especular no mercado financeiro. Por que isto não foi mudado?
Porque, para controlar ‘‘artificialmente’’ os preços (e as txas de inflação) dentro do País, o governo deixou entrar mercadorias do mundo inteiro, sem nenhum controle.
Trigo e lácteos Outros tipos de produtos como é o caso do trigo e dos lácteos, seus países de origem arcam com parte dos custos para se verem livres das sobras, sem prejudicar suas economias internas.
É o caso do trigo francês que nos foi vendido por aproximadamente 80 dólares por tonelada enquanto o governo de lá pagava 240 dólares para seus agricultores. Esta é uma operação de ‘‘dumping’’.
Para piorar a situação, o governo adotou cumulativamente a ‘‘âncora cambial’’, ou seja, segurou artificialmente o preço do dólar, visando o mesmo objetivo: conter os preços no mercado interno.
Como funciona isto?
O preço do dólar está sendo controlado pelo governo a R$ 1,20, quando poderia estar valendo até R$ 1,40. Assim, se um agricultor vende uma saca de soja a 10 dólares vai receber R$ 10,00 + 1,20 ou seja R$ 12,00 quando deveria receber R$ 14,00. Esta diferença de R$ 2,00 do exemplo é chamada ‘‘perda cambial’’, provocada pela forma de atuação de nossas autoridades e que funciona como se fosse um imposto sobre a produção.
Conforme a atividade, esta perda cambial torna inviável certos tipos de produção, porque os custos são maiores do que os preços de venda. As pequenas perdas individuais, quando totalizadas, chegam a números astronômicos. Por exemplo, na última safra agrícola o Paraná produziu aproximadamente 116 milhões de sacas de soja que multiplicadas pelos 2 reais de perda cambial, mostram que nossos produtores foram confiscados em R$ 332 milhões, dinheiro que deixou de circular em nossa economia.
O autor reconhece as virtudes da implantação do Plano Real. Mas deixa claro que há três anos a crise já se desenhava. Houve tempo para contornar a crise. Se correção não houve, pode ter ocorrido incompetência, imprudência, arrogância ou triunfalismo.
O Brasil, apesar de tudo tem solução, por ser um País com imensas potencialidades. O ajuste cambial e a defesa de nossa produção, contra o ‘‘Dumping’’ internacional são as medidas mais urgentes e as que realmente criam mercado e emprego. Tenho certeza que vamos encontrar o caminho certo. O autor, Luiz Antônio Fayet, termina sua explicação com uma pergunta: ‘‘Entretanto, continua intrigando-me uma coisa: se tivéssemos adotado as medidas certas para ir ajustando o Plano Real, a situação estaria ótima e o projeto de reeleição mais favorecido. Por que não aconteceu?’’

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