Rio de Janeiro - As indústrias têxtil e de vestuário deverão ser beneficiadas pela crise e chegarão ao Natal deste ano e em 2009 com aceleração do crescimento, na contramão da desaceleração prevista para a economia brasileira, avaliam executivos das principais entidades do setor. A expectativa da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) é que os investimentos do setor no ano que vem, previstos em US$ 1 bilhão, sejam mantidos.
  Prejudicadas pelo aumento das importações de produtos concorrentes, especialmente da China, por causa da valorização do real, as empresas do setor encaram a atual depreciação cambial como oportunidade para recuperar o espaço perdido no mercado interno.
  A balança comercial do setor têxtil deverá somar um déficit de US$ 1,6 bilhão este ano, segundo projeção do conselheiro da Abit, Rafael Cervoni, que também é presidente do Sinditêxtil-SP. Segundo ele, as importações são o principal fator a explicar a significativa diferença entre o crescimento nas vendas no varejo de tecidos e confecções (10,2% no acumulado de janeiro a agosto, segundo o IBGE) e da indústria do setor.
  Segundo o IBGE, a indústria têxtil acumula alta na produção de apenas 0,3% de janeiro a agosto, enquanto vestuário e acessórios aumentou 4,9%, ambos abaixo da média da expansão industrial no período (6%).
  Segundo Cervoni, as importações de têxteis serão afetadas não apenas porque ficaram mais caras por causa do dólar, mas também pela restrição de crédito a empresas que já tinham fechado negócio. ‘‘Nas três primeiras semanas de crise, os preços dos produtos importados aumentaram quase 50%’’, afirma.
  Ele disse que alguns importadores estão preferindo deixar as encomendas no porto, nos contêineres, porque fica mais barato do que retirar as mercadorias. ‘‘Somos favoráveis à abertura de mercado, mas contra a concorrência predatória’’, disse Cervoni, que também é diretor-executivo do programa Apex Brasil.
  A avaliação do executivo é que, num primeiro momento, as empresas devem ‘‘segurar os investimentos’’ diante da crise, mas essa cautela deve ser passageira e investimentos em torno de US$ 1 bilhão devem ocorrer em 2009, em patamar próximo deste ano, quando segundo ele serão investidos US$ 1,3 bilhão.
Limonada
  Do total produzido pela indústria têxtil no Brasil, 92% ficam no mercado interno. O presidente do SindiVestuário, entidade das indústrias de confecção, Ronald Masijah, avalia que nem mesmo a perspectiva de desaceleração do crescimento da demanda doméstica é considerada um obstáculo para o setor. Ele também acredita que a crise pode ser uma oportunidade para o setor concentrar as expectativas positivas, sobretudo, no próximo Natal. ‘‘Deste limão, a crise econômica mundial, vamos fazer uma limonada, tirar algo positivo’’, disse.
  A avaliação de Masijah é que, no final deste ano, as importações já terão caído o suficiente para elevar as vendas dos produtos nacionais em 8% em relação ao Natal do ano passado. ‘‘Os preços dos importados estão ficando mais próximos dos nacionais e o nosso produto tem melhor qualidade’’, explica. Além disso, ele acredita que recursos que estavam concentrados no pagamento de prestações de bens duráveis, como automóveis, vão ser revertidos para o consumo de vestuário com a crise.

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