Rumores vêm circulando no mercado financeiro internacional, nos últimos dias, sobre a possibilidade de que o pacote em negociação entre a Argentina e o Fundo Monetário Internacional (FMI) contenha, além de novo empréstimo e exigências draconianas de disciplina fiscal, uma mudança nos regimes monetário e cambial do país. As opiniões sobre qual seria esta mudança são muito variadas todo um cardápio de opções de desvalorização, dolarização e moratória, combinadas nas mais criativas formas.

Estes rumores são alimentados pela percepção de que o regime de ''currency board'' (que iguala a cotação do peso ao dólar), dado o alto grau de endividamento do país, é insustentável no médio e longo prazo. Mas nem todo mundo acredita nisto. Argentinos, naturalmente, são mais propensos a defender a idéia de que é possível tirar o país do buraco sem desvalorizar ou dar calote. Um exemplo desta postura é o ex-ministro da Economia, Ricardo López-Murphy, que fez uma palestra no Rio na sexta-feira.

Um dos maiores obstáculos à recuperação da Argentina sem mudança cambial é o descrédito internacional. ''Se a Argentina quer mais dinheiro do FMI, ela que tome as decisões difíceis mas necessárias na restruturação da dívida e em um novo regime cambial que Domingo Cavallo, ministro da Economia, evitou até agora, mas que dariam ao novo programa alguma chance'', escreveu recentemente, no Financial Times, Morris Goldstein, do Instituto para Economia Internacional e ex-vice-diretor de pesquisa do FMI.

Mas muitos economistas acham que a situação da Argentina não tem saída, mesmo que os melhores cenários quanto à ajuda externa e a implementação do déficit zero e outras reformas se materializem. Por esta visão, o país caiu numa situação de deflação da qual não vai conseguir escapar com o seu sistema de ''currency board'', pelo qual todos os pesos em circulação são garantidos por dólares sob o controle do Banco Central.
O currency board priva o país da capacidade de derrubar os juros, desvalorizar o câmbio ou fazer grandes gastos públicos, as armas clássicas para se sair de uma depressão econômica. Mesmo com todos estes instrumentos, é difícil tirar um país de situações de recessão deflacionária, como indica o Japão dos últimos dez anos.
Com a prudência de quem se especializou em projeções econômicas, Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), diz que ''o futuro vai dizer se isto acontecerá ou não''. A sua análise, porém, trai um grande ceticismo: ''Para que a Argentina cresça, é preciso algum estímulo à demanda; país que tem política monetária pode baixar os juros, com currency board não há como'', ele diz.

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