Crise argentina derruba exportações brasileiras
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quarta-feira, 04 de julho de 2001
Agência Estado De Brasília 
A crise econômica argentina este mês o país entrou no quarto ano de recessão está atingindo em cheio alguns dos principais setores produtivos brasileiros com alto valor agregado. A retração do consumo interno, principalmente da classe média argentina, que foi um dos principais motores da economia do país no início da década passada, fez cair significativamente as exportações de veículos automotores, componentes, celulares e computadores brasileiros para esse mercado.
Embora as vendas externas totais brasileiras para a Argentina tenham crescido 2,12% entre janeiro e maio deste ano, em comparação com igual período de 2000, as exportações de alguns itens de alto valor agregado despencaram, mostrando quedas de mais de 45%.
De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o envio de automóveis com motor de 1.000, por exemplo, caiu 48,22% nos cinco primeiros meses deste ano. Os terminais portáteis de telefonia celular não ficaram muito atrás. A exportação desses aparelhos para o mercado argentino caiu 46,70%, se comparada com o resultado do mesmo período de 2000.
Unidades microprocessadoras digitais de pequena capacidade e café não-torrado, não descafeinado e em grão também mostram péssimo desempenho no mercado argentino nesse período. Os dados da Secex mostram quedas de 46,23% e de 42,72%, respectivamente.
Chassis com motor para veículos de transporte para dez ou mais passageiros e motores a diesel de alta potência também mostram quedas de 51,67% e de 54,29%, respectivamente, nas exportações do Brasil para a Argentina. Essa significativa retração nas importações de produtos brasileiros permitiu manter o já costumeiro pelo menos nos últimos cinco anos superávit comercial desse país com o Brasil. Os números da Secex confirmam que o Brasil é o principal destino das exportações argentinas no mundo e, apesar da recessão econômica, o principal fornecedor de suas importações. Entre janeiro e maio deste ano, por exemplo, as exportações totais argentinas para o mercado brasileiro cresceram 8,35%.
No ano passado, as vendas externas argentinas para o Brasil haviam somado US$ 6,99 bilhões, ou 26,5% de suas exportações totais. Já as importações argentinas do Brasil somaram naquele ano US$ 6,44 bilhões, ou 25,5% do total. Comparando com outros destinos, os números confirmam o Brasil como o maior sócio comercial dos argentinos.
Em 2000, a Argentina vendeu para a União Européia US$ 4,6 bilhões (17,4% do total das exportações), US$ 3,1 bilhões para os Estados Unidos (11,8%), US$ 2,7 bilhões para o Chile (10,1%) e US$ 9 bilhões para a soma de todos os outros mercados (34,2%).
Os números da Secex mostram ainda que o comércio com o Brasil tem sido constantemente favorável aos argentinos. Desde 1995, por exemplo, a Argentina registra contínuos superávits comerciais e nem mesmo a desvalorização do real, em janeiro de 1999, provocou a chamada avalanche de produtos brasileiros para esse mercado. Naquele ano, o superávit comercial argentino foi US$ 448 milhões.
Embora a corrente de comércio (exportações mais importações) entre os dois países tenha caído para US$ 11,18 bilhões em 1999, voltou a crescer em 2000, atingindo US$ 13,08 bilhões. Com isso, o saldo favorável à Argentina subiu para US$ 610 milhões.
E, ao contrário do que o ministro argentino de Economia, Domingo Cavallo, costuma afirmar em suas palestras e em entrevistas à imprensa, a desvalorização do real, além de outros elementos, como o desaquecimento da economia brasileira, não provocou a redução das importações brasileiras, não só da Argentina como dos outros parceiros no Mercosul. Ou seja, além de o Brasil estar ainda importando mais do mercado argentino, não invadiu com seus produtos esse país.
Os contínuos superávits com o Brasil se mostraram fundamentais para a balança comercial argentina, principalmente para compensar (parcialmente) os significativos déficits com outros parceiros importantes. Entre 1995 e 2000, por exemplo, a Argentina sempre importou mais do que exportou para os Estados Unidos, União Européia e Japão. Enquanto nesse período a Argentina acumulou (em valores) um superávit de US$ 5,34 bilhões como Brasil, o saldo negativo total dos argentinos com esses mercados nesses cin co anos foi de US$ 35 bilhões.
Embora o Brasil tenha se transformado em um mercado decisivo para as exportações de petróleo e trigo (31,5% e 46%, respectivamente, do total exportado), esse itens praticamente não dominam a lista de exportações argentinas para o mercado brasileiro.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), o envio de produtos manufaturados de origem industrial (MOI) para o Brasil somou US$ 3,29 bilhões em 2000, representando 47,1% de suas vendas totais para o Brasil.


