A preocupação com o futuro econômico argentino trouxe uma onda de pessimismo ao mercado brasileiro ontem. A Bolsa de Valores de São Paulo registrou queda de 2,98%, a maior desde 31 de março. O dólar comercial subiu 0,83% em relação a anteontem. E os C-Bonds registraram queda de 3,1% no valor de face. Vários boatos invadiram o mercado brasileiro ontem. Alguns deles teriam sido plantados por brasileiros, interessados na queda dos preços das ações locais.
Um deles dizia que o ministro da Economia, Roque Fernández, estaria demissionário. Foi necessário o desmentido do presidente da Argentina, Carlos Menem, à tarde, para acalmar os investidores. Como Fernández está em viagem pelos Estados Unidos, ganhou força o rumor de que ele estaria negociando a dolarização imediata da economia argentina, fato negado por ele em entrevista à Agência Folha.
Contribuiu para o clima de nervosismo uma declaração do megainvestidor George Soros sobre a Argentina. Para ele, o peso (moeda argentina) está sobrevalorizado, apesar do sistema de conversibilidade (um dólar vale um peso). A renúncia do ministro do Trabalho da Argentina, Erman González, ontem, também teve uma repercussão ruim.
A exemplo dos dois dias anteriores, o comportamento do mercado brasileiro passou a ser determinado pelas notícias argentinas. Os investidores estrangeiros preferiram vender ações brasileiras e embolsar o lucro obtido, esperando o início da próxima semana para adotar novas posições. O movimento, chamado de ‘‘realização do lucro’’, fez a Bovespa cair até 3,65% durante o pregão.
O índice Merval, da Bolsa de Buenos Aires, que ajudou a determinar o patamar da Bovespa, fechou o pregão em baixa de 4,3%. No exterior, os C-Bonds, títulos brasileiros mais comercializados, voltaram a cair. Os compradores estavam pedindo uma taxa de juros maior do que a atual (cerca de 13% ao ano) para assumirem o risco embutido nos papéis. Os FRBs, títulos argentinos de maior comercialização no exterior, também caíram: 0,44%.
Os portadores de títulos de dívidas dos países emergentes estão preferindo vender os papéis e correr para os T-Bonds (títulos norte-americanos de 30 anos, considerados os mais seguros do planeta). O papel teve valorização de 0,75% em seu preço ontem, devido à grande procura.
Com os investidores estrangeiros fugindo do mercado acionário brasileiro e sem a intervenção do Banco Central, o dólar voltou a fechar em alta ontem. A moeda ficou cotada em R$ 1,70 (paralelo, para venda), no fim do dia, maior alta desde 27 de abril.

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