Crise argentina abala a economia do Brasil. Dólar sobe; bolsas caem
Agência Folha
De São Paulo
A instabilidade econô mica e política na Ar gentina causou problemas ontem ao mercado brasileiro. A Bolsa de Valores de São Paulo caiu 2,04%, e o dólar comercial subiu 1,94%. A cotação da moeda atingiu, na venda, R$ 1,835, ao final dos negócios. Foi a maior desde 24 de março, quando registrou R$ 1,84. Naquele momento, no entanto, a moeda estava numa curva de queda. Após a maxidesvalorização do real, o dólar atingiu R$ 2,16 e foi recuando. Agora, a moeda está na ascendente.
A instabilidade foi deflagrada pelo temor de que a Argentina não conseguirá honrar seus compromissos. Os títulos da dívida do país recuaram, e a Bolsa local registrou queda de 8,66%. A Bovespa acompanhou a tendência e chegou a cair 3,23% durante a tarde. O fato de a Bolsa cair 9% na Argentina provoca um impacto no Brasil. Além disso, não temos um clima interno capaz de reverter a tendência de queda ou minimizar os efeitos, afirmou Marcelo Faria, da Síntese Corretora de Valores.
Segundo ele, o mercado já vem acompanhando a situação da Argentina há algum tempo. Declarações políticas dos candidatos à Presidência do país, nos últimos dias, deram a entender que o governo argentino poderia decretar moratória no pagamento de suas dívidas. Isso gerou um movimento defensivista por parte dos investidores. A crise na Argentina tem reflexos no Brasil, segundo analistas, devido a dois fatores principais: a) o país é o principal parceiro comercial dos brasileiros e b) os investidores estrangeiros vêem a América Latina (principalmente os problemas dela) como um bloco. A influência argentina atinge todas as bolsas latino-americanas e provoca uma queda imediata nos títulos das dívidas de países emergentes, afirmou José Luís, da Isoldi Corretora.
Fatores internos também pressionaram a queda da Bovespa ontem. A indefinição do presidente Fernando Henrique Cardoso quanto à reforma ministerial e a ausência de fatos novos (com o Congresso em recesso) contribuíram para o clima pessimista. A pressão foi forte também no câmbio. Como ele é flutuante, absorve com mais intensidade as mudanças de humor do mercado, disse Mário Battistel, da corretora Novação. O Banco Central teria deixado o câmbio seguir livremente. Segundo quatro operadores ouvidos pela reportagem, não houve movimento de venda de moeda pelo BC. Se o efeito é externo, não seria uma operação de venda que traria tranquilidade ao mercado, afirmou Battistel.
A tendência de alta do dólar deve continuar hoje, já que é esperada a liquidação de US$ 500 milhões em eurobonds (títulos de dívida brasileira no exterior), que vencem na quinta-feira. Outra consequência foi sentida no setor de renda fixa. Os juros futuros dispararam. A taxa projetada para agosto ficou em 24,69%. Os juros de mercado (Selic) estão em 21% ao ano.
A situação atual da Argentina é agravada pelas incertezas no cenário político. Os investidores estão inquietos com as declarações dos candidatos à Presidência. No mais recente episódio, Eduardo Duhalde, candidato do Partido Justicialista, disse que vai pedir ao papa para ajudá-lo a suspender o pagamento da dívida externa por um ano. Fernando de la Rúa, da oposição, também indica não estar satisfeito com a situação da dívida externa. Para os investidores, as afirmações são uma ameaça de moratória.





