Vânia Casado
A crise da pecuária leiteira está se tornando dramática. A indústria está descapitalizada e desconta duplicatas a 5% ao mês no mercado para conceder um prazo de 40 dias ao comércio e, assim, conseguir desovar a mercadoria. No Paraná, as cooperativas querem R$ 15 milhões para estocar o longa vida, queijo e leite em pó. O produtor, mesmo aquele que opera com alta tecnologia, vende com prejuízo.
A decisão do Banco Central, referendada pelo Conselho Monetário Nacional na última quarta-feira, abrindo crédito para o leite in natura no prazo de 180 dias, não alivia as dificuldades. Com essa linha especial, já existente para outros produtos, o BC autorizou a concessão de Notas Promissórias Rurais e Duplicatas Rurais pelas cooperativas de laticínios para empréstimos e adiantamento aos cooperados. Só que a situação é crítica e o setor necessita de um projeto para sua reestruturação, segundo Wilson Thiensen, presidente do Sindileite.
Desde meados do ano passado quando começou a ocorrer uma superoferta de produto - com as importações subsidiadas -, o preço do leite pago ao produtor caiu entre 60% e 70%. Atualmente, o produtor está recebendo menos que R$ 0,20/litro, sendo que em algumas regiões ele recebe entre R$ 0,14 e R$ 0,15 /litro. E a indústria está trabalhando com prejuízos que variam entre R$ 0,15 e R$ 0,16 na produção de leite longa vida.
Para Thiensen, a preocupação é o retrocesso do setor, que poderá custar o investimento nas indústrias, a geração de empregos e a sobrevivência do produtor. Além desses setores, todos os elos da cadeia do leite também estão ameaçados com a perda de margem na comercialização dos produtos, destacou. Além do leite os derivados também estão sendo comercializados com preços abaixo do custo de produção. Para se ter uma idéia, ilustrou, existe queijo sendo comercializado a R$ 2,00 o quilo. ‘‘Como é possível vender o produto por esse preço se para a fabricação de um quilo, são necessários 10 litros de leite’’, perguntou.
O momento é considerado crítico porque está entrando muito leite importado, com subsídios que chegam a 70% do custo de produção nos países de origem, denunciou a Faep - Federação da Agricultura do Paraná. Paralelamente à elevação das importações, ocorreu aumento de produção nacional e para agravar a situação, caiu o consumo, diagnosticou Thiensen. Se permanecer esse quadro, a Ocepar acredita numa mudança radical no perfil da produção de leite. O presidente da entidade, João Paulo Koslovski, afirma que 80% dos 40.000 produtores de leite correm o risco de deixar a atividade, cedendo lugar para a pecuária de escala, como está ocorrendo com a suinocultura.
Protesto Preocupados com essa situação, produtores de leite dos três estados do Sul, entidades representativas da agropecuária e a Comissão de Agricultura da Câmara Federal vão promover uma ‘‘sessão pública’’ no dia 2 de fevereiro. Trata-se do encontro regional Sul, que será realizado no Centro Cívico, para discutir a crise da pecuária leiteira e avaliar as propostas para reestruturação do setor. Representantes da bancada federal, presidente das federações de produtores e de cooperativas dos três estados do Sul deverão estar em Curitiba na segunda-feira para denunciar a crise da pecuária leiteira no sul do país. Está confirmada a vinda de 25 ônibus do interior, com produtores de leite que vão ordenhar animais no centro da cidade. O governador Jaime Lerner já confirmou sua presença no protesto dos produtores de leite, que promete agitar a cidade e chamar a atenção da população e do governo federal.

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