Crise ameaça os países da América Latina
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sábado, 05 de setembro de 1998
Agência Estado-Reuters 
Os fortes ventos da crise asiática, que já transformaram em pesadelo o fim do ameno verão russo, instalaram-se enfim na América Latina, região que até agora parecia ter conseguido manter-se à tona em um clima instabilidade mundial. Bolsas, moedas e títulos da dívida dos principais países da região estão, agora, sendo duramente afetados pela colapso financeiro global.
Apesar das reiteradas declarações das autoridades locais, que tentam acalmar os investidores argumentando que as condições econômicas da região não têm semelhanças com os fundamentos dos países em crise, pelo menos quatro nações latino-americanas estão diante da perspectiva de mudanças dramáticas na condução das políticas econômicas individuais. Na Colômbia, na Argentina, na Venezuela, e até no México, o cenário provável é de forte desaceleração.
Veja abaixo a situação atual em cada um desses países:
Colômbia : O governo da Colômbia - que ja havia divulgado um pacote fiscal e desvalorizado o peso alterando o teto da banda cambial na quarta-feira e, por isso considerava o país imune a novas turbulências - foi obrigado a intervir no mercado de câmbio por três dias seguidos para impedir uma desvalorização muito rápida da divisa local. Só na sexta-feira, o Tesouro colombiano gastou US$ 60 milhões em tentativas inúteis de manter a depreciação do peso dentro dos novos limites impostos.
Desde quarta-feira as intervenções oficiais no mercado de câmbio já custaram US$ 250 milhões, o equivalente a 3% das reservas totais do país, estimadas em US$ 9 bilhões. Apesar das intervenções, o peso já perdeu 5% de seu valor desde a quarta-feira.
Argentina : Apesar dos altos e baixos da Bolsa de Buenos Aires, a Argentina do presidente Carlos Menem era considerado um exemplo de estabilidade econômica desde que adotou o sistema de currency board (conselho de moeda) com câmbio fixo em 1991. A exemplo do Brasil, a Argentina sobreviveu à crise do México, em 1995, e considerava-se imune às novas turbulências.
A desconfiança dos investidores nos mercados emergentes em geral, porém, começou a afetar o sistema interno de crédito no mês passado. O custo dos financiamentos em moeda local duplicou, refletindo o aumento do risco.
Em apenas um mês, os juros cobrados pelos bancos argentinos para conceder empréstimos em pesos à empresas sólidas havia subido de 8% para 15,38%. As taxas para os pequenos tomadores de crédito são ainda mais punitivas: 20%.
Com a elevação súbita do custo do dinheiro e o agravamento da crise regional, o desempenho da indústria local também começa a dar sinais de comprometimento. As vendas de veículos automotores no mercado interno, por exemplo, caíram 5,2% em agosto, em relação ao mês anterior.
As montadoras argentinas dependem mais, hoje, das exportações de automóveis, principalmente para o Mercosul. Mas essa porta pode ser fechada caso a situação do Brasil também fique mais difícil.
Venezuela : A Venezuela, que viu despencer suas receitas com a venda externa de petróleo, foi obrigada a anunciar na sexa-feita um novo pacote fiscal para cobrir o déficit de 4,5% do PIB e quitar US$ 22 bilhões em dívidas externas.
As reservas do país, que em 31 de dezembro de 1997 estavam em US$ 17,818 bilhões, estão hoje em perigosos US$ 14,104 bilhões. O preço do barril do petróleo exportado pelo Venezuela, produto que representa 80% das vendas externas totais do país, está entre US$ 9,96 e US$ 10,21, bem abaixo dos US$ 15,50 previstos.
México : O epicentro do primeiro terremoto financeiro recente, em dezembro de 1994, e já praticamente curado das feridas econômicas, voltou a registrar um déficit de US$ 6,967 bilhões em conta corrente no primeiro semestre do ano e sua divisa retomou uma perigosa trajetória de queda.
Desde o início do ano o peso já perdeu 20% de seu valor, enquanto a Bolsa do México acumula queda superior a 40% no ano. Pior ainda, também os títulos de sua dívida soberana estão novamente ameaçados de rebaixamento pelas companhias que fazem análise de risco.
Na semana passada o Tesouro mexicano foi obrigado a cancelar um leilão de títulos públicos prefixados porque o mercado exigia juros de mais de 50% para aceitar os papéis de prazos mais longos. Para rolar sua dívida, o governo foi obrigado a encurtar os prazos de vencimento e oferecer taxas pós-fixadas.
A instabilidade no mercado forçou também a elevação dos juros cobrados nos empréstimos concedidos às empresas e ao consumidor desde o mês passado. Para complicar ainda mais a situação do governo mexicano, a agência norte-americana de classificação de risco Moodys Investor Services, anunciou na sexta-feira que deverá rever, para baixo, a nota dada aos bônus em moeda estrangeira emitidos pelo país.


