Crise altera perfil da população rural
Guto Rocha
De Londrina
A queda na renda agrícola e a modernização das técnicas de produção provocaram uma mudança no perfil da ocupação e uso da zona rural brasileira nos últimos dez anos. Segundo um estudo realizado pelo pesquisador da área de Sócio-Economia do Iapar, Mauro Eduardo Del Grossi, a mudança está no fato de que as famílias rurais permanecem no campo, mas trabalham em atividades não-agrícolas para se manter ou complementar a renda.
Estas pessoas foram denominadas pelo pesquisador como pluriativas. A constatação é resultado da tese de doutorado Evolução das Ocupações Não-agrícolas no Meio Rural Brasileiro defendida por Del Grossi no início deste ano na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Segundo Del Grossi, com a modernização da agricultura ocorrida a partir da primeira Revolução Verde, na década de 70, houve aumento da produtividade, mas o número de pessoas ocupadas na atividade caiu. No ínicio, quando o trabalhor perdia o emprego no campo, vinha para a cidade. Hoje, as famílias rurais permanecem na zona rural, buscando atividades não-agrícolas para sobreviver, afirma o pesquisador.
Del Grossi disse que a redução do fluxo do êxodo rural é provocada por um conjunto de fatores. A dificuldade de se encontrar empregos, em primeiro lugar; os altos custos de habitação nos centros urbanos e ainda os problemas relacionados às drogas e violência na área urbana.
Outro fator que provocou esta mudança é a crise que o setor rural enfrenta, com a depreciação dos preços dos produtos agrícolas, resultando diretamente na queda da renda das famílias rurais. Hoje a agricultura, para ser rentável, exige escala de produção e inserção na cadeia produtiva, observou. Segundo ele, durante o Plano Real a renda agrícola teve queda de 2% ao ano.
Os dados utilizados pelo pesquisador fazem parte das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílio (PNADs) do IBGE de 1981 e 1992 a 1997. Segundo estes dados, atualmente são 4 milhões de pessoas que vivem no meio rural, mas que não têm a atividade agrícola como principal fonte de renda. Os dados mostram ainda que a população economicamente ativa no meio rural sofreu uma redução de 700 mil pessoas entre 92 e 97, passando de 15 milhões para 14,3 milhões de pessoas, sendo que foi registrada uma queda maior nas atividade agrícolas.
Este contingente não migrou para a cidade porque foi absorvido pelas atividades não-agrícolas. Entre 92 e 97, os pluriativos passaram de 3,5 milhões para 4,5 milhões de pessoas, com uma taxa de crescimento de 2,5% ao ano.
No Paraná, segundo Del Grossi, este movimento foi mais intenso. Enquanto a atividade agrícola diminuiu em média 5% ao ano, os trabalhadores que vivem no meio rural como pluriativos cresceu 5,8% ao ano. Hoje são 226 mil pessoas nessas condições no Paraná, representando 25% da mão-de-obra no campo.
Os fatores que provocaram o surgimento das famílias pluriativas também levaram muitas famílias rurais a terem atividades exclusivamente não-agrícolas. No Paraná, as famílias que se dedicam a atividades não-agrícolas mas permanecem no campo já somam 93 mil, superando as famílias pluriativas que somam 81 mil.
Os trabalhadores pluriativos e os exclusivamente não-agrícolas, segundo a pesquisa, trabalham principalmente como empregados domésticos, pedreiros, autônomos, professores de primeiro grau, balconistas, motoristas, serventes, pedreiros, entre outras atividades. Del Grossi observou que a demanda da população urbana por atividades de lazer na zona rural também absorve grande contingente de pluriativos. São os pesque-pagues, hotéis fazenda, pousadas e os condomínios de chacarás que absorvem trabalhadores domésticos, disse o pesquisador.





