São Paulo - A crise política começa a azedar o humor das empresas e o ambiente dos negócios, especialmente nos setores de comércio e de serviços, que têm como foco o mercado doméstico e funcionam como o pára-choque da economia. Pesquisa da escola de negócios Mercatus, feita a pedido da Agência Estado, revela que quase 90% das companhias declararam que o cenário político já influencia o seu dia a dia. Desse total, 61% informaram que se sentem muito afetadas e 26%, pouco. Apenas 13% declararam que as turbulências políticas não afetaram os negócios.
A enquete, de âmbito nacional, ouviu basicamente executivos em cargos de presidência e diretoria de 40 empresas de portes pequeno, médio e grande na semana passada. Mais da metade das companhias (57%) consultadas é dos setores de comércio e serviços. A indústria responde por 18% da amostra e 25% das empresas não identificaram o ramo em que atuam.
''Houve um declínio da positividade dos empresários e, com isso, eles tenderão a adotar uma postura mais conservadora. A contaminação do ambiente de negócios deverá se ampliar quanto mais tempo levar o desfecho da crise política'', afirma o diretor da Mercatus e consultor responsável pela pesquisa, Alessandro Saade.
Cerca de 60% das companhias informaram que os investimentos em curso foram afetados. Essa fatia sobe para 65% entre as empresas de comércio e de serviços, enquanto é de 57% entre as empresas industriais, mostra a pesquisa. Saade pondera que o fato de os executivos declararem que os investimentos atuais estão sendo afetados não significa que eles serão interrompidos, mas que a rentabilidade dos projetos será menor do que a inicialmente prevista.
Com relação aos investimentos programados para começarem até o fim deste ano, a pesquisa indica um cenário equilibrado: metade das companhias informou que o planejamento foi afetado e a outra metade declarou não ter sentido esse impacto nos investimentos.
O consultor explica que, nesse caso, a manutenção da programação de investimentos até dezembro é mais nítida entre as empresas que atuam no mercado externo e, portanto, têm negócios lastreados nas exportações. Além disso, ele argumenta que o recuo dos investimentos é mais comum entre as companhias de menor porte e do setor de serviços, que são as menos capitalizadas. ''A Burger King, por exemplo, não vai diminuir o ritmo de expansão por causa da crise política, já que passou 20 anos tentando entrar no País.''
Segundo semestre - A maioria das empresas (58%) acredita que a instabilidade política afetou a produção e as vendas para o segundo semestre. De acordo com a enquete, 40% se dizem muito afetadas e 18% pouco afetadas em relação ao faturamento projetado para os próximos meses.
O quadro é mais crítico entre as empresas do setor de serviços, com 64% das companhias informando que terão as vendas influenciadas por esse novo cenário. Entre as indústrias, no entanto, as perspectivas são favoráveis, com a maioria (57%) não sentindo os negócios afetados para este semestre.
''A indústria está mais imune à crise política por causa das exportações, que são compromissos de longo prazo'', reforça Saade. A prova disso é que também em termos de contratações as indústrias mantêm seus projetos, independentemente da crise: 71% delas informaram que não vão reduzir as contratações programadas.
Já entre as empresas de comércio e de serviços, a maioria (57%) informou que pretende reduzir as contratações até dezembro, puxando para 55% a média geral das empresas pesquisadas que planejam reduzir as admissões neste semestre.
Segundo a sondagem, a crise política da era Collor foi a mais grave para os negócios. Cerca de 49% dos entrevistados declararam que as turbulências desse período foram as que mais influenciaram o dia-a-dia das companhias . ''As empresas ficaram de mãos atadas pela falta de liquidez'', diz Saade. A crise política atual está na vice-liderança como a que mais afetou as empresas, sendo apontada por 30% das companhias, conforme a pesquisa da Mercatus. Nesse caso, o consultor pondera que a pior crise é sempre a do momento.

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