Crescimento exclui 58 milhões de brasileiros
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sábado, 16 de outubro de 2004
Patrícia Campos Mello<br> Agência Estado 
Depois de vários anos decepcionantes, o Brasil deve crescer 4,5% em 2004. Mas grande parte dos 58 milhões de pobres do País não tem motivos para comemorar esse crescimento. Segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), para o Brasil resgatar 17 milhões de pessoas da pobreza - menos da metade de todos os famintos do País - seria necessário crescer 4,5% ao ano durante 11 anos, hipótese bem otimista.
Com o País na rota para o crescimento sustentado, muitos economistas voltaram a discutir a necessidade de fazer esse crescimento chegar até as pessoas que mais precisam dele. Os economistas querem garantir que o PIB em alta seja comemorado pela elite nos bairros nobres, mas também nas favelas. Qualquer crescimento é bem-vindo ou é preciso também distribuir renda? A maré alta eleva todos os barcos, ou não? Para alguns, qualquer crescimento beneficia os pobres. Para outros, o aumento do PIB vai demorar muito para chegar até a camada pobre. A não ser que se introduzam políticas eficazes para ter um crescimento pró-pobre.
Em um lado da trincheira estão os economistas que acham que o único crescimento pró-pobre é aquele que distribui renda. Entre os representantes dessa corrente está Nanak Kakwani, diretor do Centro Internacional de Pobreza do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, e Ricardo Paes de Barros, economista do Ipea. No campo oposto, reúnem-se especialistas como Martin Ravallion, do Banco Mundial, Eliana Cardoso, professora da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, e John Williamson, do Instituto de Economia Internacional. Eles acreditam que qualquer crescimento é pró-pobre, na medida em que, mesmo sem distribuir renda, o crescimento gera empregos e tira pessoas da pobreza.
Nos últimos dias, a polêmica tomou conta dos círculos de especialistas em redução de pobreza. ''Não é qualquer tipo de crescimento que é bom para os pobres; o crescimento precisa beneficiar mais os pobres do que os ricos para ser considerado pró-pobre'', disse Kakwani para a reportagem. ''O crescimento pode acabar aumentando a pobreza. É o que se chama de crescimento 'immiserizing' (empobrecedor).'' Na Inglaterra do século 19, a pobreza aumentou, mesmo com o crescimento do país.
Em um e-mail incisivo para uma lista de economistas, Ravallion usa a China para rebater a tese de Kakwani. Em 1980, a China tinha 64% da população vivendo na miséria. Em 2001, essa taxa caiu para 17%. ''Esse crescimento certamente foi pró-pobre, apesar de a desigualdade na China ter crescido.''
Eliana Cardoso cita o Milagre Econômico. Nos anos 70, o Brasil cresceu muito, mas houve um aumento na desigualdade. Mesmo assim, o crescimento acabou chegando até os pobres. Os ricos ficaram mais ricos, mas muitos pobres deixaram de ser pobres. A pobreza caiu 50%.
Qualquer crescimento reduz a quantidade de pobres de um país, concede Ricardo Paes de Barros. Mas a redução da desigualdade acelera a redução da pobreza. ''Se não fizer distribuição de renda, o crescimento vai reduzir pobreza, mas vai demorar muito mais'', diz. ''A renda per capita do Brasil está entre as 30% maiores do mundo. Já somos suficientemente ricos para não ter tantos pobres.''
Alguns economistas admitem que a discussão sobre crescimento pró-pobre ou empobrecedor pode ter ficado bizantina. ''Os países da América Latina lutaram tanto para crescer e agora vão ficar dizendo se o crescimento é bom ou ruim?'', diz Eliana.


