Agência Estado
De São Paulo
Um crescimento do Brasil e do mundo nos próximos 12 meses é o melhor remédio para a crise comercial que está atrapalhando o Mercosul e ameaça dividir o bloco nas negociações da Rodada do Milênio, em novembro. A recuperação da economia brasileira impulsionaria as exportações argentinas e daria tempo para que o novo governo argentino, a ser eleito em outubro, inicie as reformas que permitirão recuperar a competitividade perdida com a desvalorização do real, segundo economistas de ambos os países.
Mais de 30% das vendas externas argentinas têm o Brasil como destino. Por isso, a recessão brasileira afetou tão profundamente a economia vizinha. Depois de crescer 8% em 1997 e mais 3,9% no ano passado, a Argentina caminha para encerrar 1999 com uma recessão que pode chegar muito próximo de 3,5%, segundo estimativas da Consultoria Ecolatina, de Buenos Aires, e do Deutsche Bank.
‘‘A Argentina precisa recuperar competitividade com reformas estruturais’’, diz Roberto Lavagna, diretor da Ecolatina. Ele lista como reformas necessárias o corte de gastos públicos, a modificação do sistema financeiro, para reduzir o spread cobrado nos financiamentos, a redução do preço dos serviços privatizados (luz e gás, entre outros) e reforma trabalhista.
A desvalorização do real, em janeiro, está na raiz da crise entre os países, mas não é a causa principal. Ela tornou os produtos brasileiros mais baratos que os dos vizinhos. É muito difícil para a Argentina consertar a situação com desvalorização do peso porque o efeito sobre os preços internos seria devastador, ao contrário do que no Brasil, compara Lavagna.
Ao fazer a paridade de sua moeda com o dólar, a Argentina induziu empresas e pessoas físicas a tomar dívidas em dólar. Calcula-se que 85% das dívida pessoais (hipotecas, aluguéis, cartões de crédito, empréstimos) estão dolarizados. A desvalorização do peso faria todas essas dívidas crescerem na proporção da correção cambial da noite para o dia.
A economista Mônica Baer, da MB Associados, têm dúvidas se é possível para Argentina recuperar a competitividade sem mexer no câmbio. Mesmo mantendo a dúvida, a economista observa que a saída da situação atual sem mudança das regras de jogo depende da melhora no cenário externo, além do maior crescimento brasileiro. A Argentina é uma grande exportadora de commodities e teve as exportações afetadas pela retração mundial e pela queda nos preços internacionais. Essa retração já fez a Argentina perder cerca de US$ 3 bilhões em 1998, valor que pode alcançar US$ 5 bilhões este ano.

mockup