Curitiba – O programa de industrialização do Paraná, iniciado em 1995, não trouxe apenas resultados positivos, como a atração de investimentos na ordem de R$ 28 bilhões e a criação de mais de 700 mil empregos diretos e indiretos, de acordo com as informações do governo do Estado. A mecanização, produção crescente e a competitividade entre as fábricas resultaram também em uma legião de empregados com Doenças Ocupacionais Relacionadas pelo Trabalho (DORT). Além disso, essas indústrias estão criando uma categoria de desempregados portadores de algum tipo de DORT, demitidos ilegalmente porque muitas empresas negam-se a se responsabilizar pelos doentes.
Entre as DORT, as Lesões por Esforços Repetitivos (LER) são as mais preocupantes. A LER produz sintomas diversos, causa dor, mas exige a realização de exames para diagnóstico. Algumas indústrias preferem ‘‘fechar os olhos’’ para o problema. Ao invés de buscar o tratamento dos funcionários, demitem os trabalhadores.
Pelo tipo de organização do trabalho, as montadoras de automóveis são, geralmente, grandes berçários de doentes ocupacionais. As duas maiores montadoras do Estado – a francesa Renault e a alemã Volkswagen/Audi, ambas situadas na Região Metropolitana de Curitiba – não são exceção. A Volks/Audi foi convocada ontem pela Procuradoria Regional do Trabalho, para discutir denúncias do Sindicato dos Metalúrgicos sobre os crescentes casos de LER, a demissão de trabalhadores afetados pela doença e a recusa da empresa em reconhecer os casos de LER.
‘‘A PIC (Posto Industrial de Curitiba da Audi) virou uma epidemia de LER’’, diz o diretor de saúde do sindicato, Núncio Mannala. O problema, segundo ele, vem desde o ano passado, quando a empresa acabou com um turno de trabalho e demitiu cerca de 350 funcionários. Com isso, os empregados restantes tiveram que trabalhar muito mais para suprir a falta dos demitidos. O sindicato não sabe afirmar a quantidade exata dos demitidos afetados por LER. Mas o dirigente calcula que foram emitidos pelo menos 50 Comunicações de Acidente de Trabalho (CAT) para o INSS, solicitando avaliação de perícia médica.
‘‘A empresa demitiu 300 e acabou fazendo 20 mil carros a mais. Para compensar, os empregados tiveram que fazer hora-extra, extrapolar a jornada. Com isso, aumentaram as doenças ocupacionais’’, diz o sindicalista. Em 2001, a Volks/Audi produziu 98.360 veículos, contra 76,4 mil em 2000. A reportagem procurou durante dois dias a diretoria da Volks/Audi, que não quis se manifestar. Ontem, após a reunião na procuradoria, a Folha não encontrou representantes da empresa para falar sobre o assunto porque o expediente na empresa já estava encerrado.

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