Credores do antigo Instituto Brasileiro do Café (IBC) conseguiram que a Justiça de Milão sequestrasse parte dos recursos referentes ao lançamento de 500 bilhões de liras (US$ 294 milhões) em títulos lançados pelo governo brasileiro na Itália.
O sequestro dos títulos foi feito no dia 20 de junho, e o valor total ainda tem de ser informado à Justiça pelo banco Deutcher Morgan Grenfeld, responsável pela coordenação da operação.
Ontem, os advogados da Citoma Trading, uma das quatro empresas credoras do IBC, tentaram entrar em uma apresentação feita pelo diretor de assuntos
internacionais do Banco Central, Gustavo Franco, na sede do banco BZW, em Londres. Eles não tiveram o acesso ao local permitido. Franco falou a uma platéia de investidores britânicos sobre a economia brasileira. Ele lançou ontem bônus do governo brasileiro em libras esterlinas, com valor estimado entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões. Nossos clientes querem ter certeza de que este assunto chegue ao conhecimento da União, e de que o tema seja abordado pelo governo brasileiro’’, disse David Langley, advogado da Citoma
Trading.
Ele afirmou que a empresa tem cerca de US$ 70 milhões a receber do
governo. Langley disse que o sequestro dos títulos emitidos no Reino Unido deve ser pedido assim que a Justiça britânica reconhecer que a União é responsável pelas dívidas do IBC.
‘‘O governo do Brasil tem a obrigação moral e legal de pagar o débito’’, afirmou. Ele afirmou que, ‘‘se necessário os nossos clientes vão tomar novas
medidas legais que acharem cabíveis’’.
Langley não descartou a possibilidade de seu cliente entrar com novos processos em países da União Européia onde o governo brasileiro estiver lançando papéis no mercado financeiro. A falta de pagamento dos contratos fechados em Londres pelo IBC ficou conhecida como ‘‘operação Patricia’’.
O instituto fechou os contratos de compra de café no mercado de Londres, mas não pagou nem retirou o produto. O café que ficou estocado por vários anos aguardando sua retirada foi vendido depois de autorização judicial. O dinheiro foi usado para amortizar parte da dívida do IBC com as
corretoras.
Histórico No segundo semestre de 86, o IBC decidiu especular na Bolsa de Londres com o objetivo de sustentar as cotações internacionais do café. O então presidente do IBC, Paulo Sérgio Portugal Graciano, calculou na época que, se o Brasil entrasse no mercado comprando o produto, forçaria uma alta das cotações, devido aos baixos estoques mundiais de café. O Brasil poderia revender o café comprado em Londres com lucro. Era a chamada operação ‘‘London Terminal’’. A compra foi autorizada pelo então ministro da Indústria e Comércio, José Hugo Castelo Branco, com um voto reservado no CMN. Dilson Funaro, ministro da Fazenda na época, aprovou. O IBC uniu-se a 18 casas exportadoras e efetuou a compra de 635.760 sacas de café robusta, uma variedade africana de baixa qualidade, por US$ 200 milhões. Esse valor incluía os juros do financiamento externo, custos de armazenagem e a desvalorização cambial. Logo depois da compra, o mercado foi ‘‘inundado’’ pelo produto (os estoques mundiais não eram baixos, como se pensava) e a cotação do café despencou.

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