São Paulo - O discurso do governo de que o Plano de Safra, anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início deste mês, será suficiente para conter a alta de preços dos alimentos está distante de se tornar realidade. O montante de recursos que será disponibilizado pelo governo, de R$ 78 bilhões, embora seja 11,4% acima do liberado na safra passada, não cobre o aumento dos custos de produção.
Amaryllis Romano, analista da Tendências Consultoria, observa que alguns insumos, como fertilizantes, dobraram de preço. Segundo ela, o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M), medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), registrou aumento de 124,6% nos preços dos fertilizantes superfosfatos duplos e triplos no primeiro semestre. Na opinião da analista, embora o volume de recursos seja insuficiente para incentivar o aumento da área plantada, ''a simples indicação de que esse crédito é necessário e que deve ser ofertado a custos mais acessíveis ao produtor já é um avanço em termos de formulação de política agrícola''.
Na questão do combate à inflação, algumas variáveis devem ser observadas, como a questão da formação de preços de soja e milho que não depende exclusivamente de fatores internos, como o consumo pelas integrações de aves e suínos. A soja tem seu preço atrelado ao comportamento das cotações dos contratos futuros negociados na Bolsa de Chicago, que por sua vez são influenciadas por alterações na oferta e demanda mundiais, como as compras da China, os conflitos entre agricultores e governo na Argentina e as recentes enchentes que ameaçaram a safra norte-americana. A situação se complicará ainda mais quando aumentar o uso da soja para produção de biodiesel. O milho, que era o primo pobre da soja e principalmente alimento para suíno e frango, agora também é matéria-prima para a produção de biocombustível e tem seu preço vinculado ao petróleo.
Até o arroz brasileiro neste ano embarcou no mundo globalizado, quando em plena época de colheita os preços dispararam por conta das restrições às exportações impostas pela Índia e Vietnã. As estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) são de que neste ano as exportações brasileiras de arroz devem dobrar, passando de 313 mil toneladas para 700 mil toneladas. É uma exportação marginal, diante da produção de 13 milhões de toneladas, mas a previsão é de um estoque de passagem de baixo, de 1,2 milhão de toneladas, o menor das últimas seis safras.
O mercado cada vez mais globalizado levou o governo a retomar uma política que havia abandonado há 12 anos, que é a formação de estoques públicos de cereais. Os estoques de milho, por exemplo, que atingiram volume recorde de 7,354 milhões de toneladas em julho de 1987, no mês passado estavam reduzidos a 139 mil toneladas. A política que vinha sendo adotada pelo governo era de intervenção no mercado pelas margens, por meio de leilões para subsidiar o frete da região produtora para a consumidora ou bancar a diferença entre o preço de mercado e o preço mínimo de garantia (ou de referência) a fim de facilitar o escoamento da safra. Diante da alta dos preços internacionais e da alternativa de exportação, o governo terá que oferecer bons preços se quiser voltar a ter estoques de milho.

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