A crise imobiliária que abalou os alicerces da economia americana e provocou a turbulência no mercado financeiro mundial teria pouca probabilidade de ocorrer no Brasil, segundo especialistas. E a razão é simples: diferentemente dos Estados Unidos, o sistema para liberação de crédito imobiliário no País está pautado em regras mais conservadoras e seguras. O resultado disso é um índice de menos de 2% de inadimplência, na região de Londrina, e pouca instabilidade do mercado.
  ‘‘O sistema financeiro da habitação no Brasil é avesso a riscos. As regras são mais conservadoras’’, pontua Roberto Luiz Bachmann, superintendente regional da Caixa Econômica Federal, um dos principais agentes financiadores do segmento no Brasil. Aqui, a avaliação para se liberar crédito é muito mais criteriosa. Leva-se em conta todos os riscos que o tomador do empréstimo oferece, renda, estabilidade financeira, entre outros fatores.
  A Caixa, por exemplo, tem procurado melhorar a qualidade da carteira para diminuir a possibilidade de inadimplência. ‘‘E estamos conseguindo’’, frisa Bachmann. Às vezes, segundo ele, é mais interessante liberar o financiamento para um cliente que tem uma renda baixa, mas está empregado com carteira assinada há mais de dois anos, do que para um autônomo com renda alta, porém sujeita à volatilidade.
  Por outro lado, nos Estados Unidos, o que desencadeou a crise do setor foi exatamente a negligência na concessão de crédito imobiliário. Lá, explica o superintendente da Caixa, várias instituições financeiras flexibilizaram a liberação de recursos, sem analisar concretamente a capacidade de pagamento dos clientes. Muitas pessoas que tomaram dinheiro emprestado dos bancos não estavam empregadas ou não estavam com o nome limpo na praça. Resultado: inadimplência. ‘‘É a chamada crise do subprime’’, lembra o superintendente da Caixa, frisando que esse processo de liberação de crédito começou há cerca de dois anos.
  Fora o fato das hipotecas terem risco maior devido ao perfil dos tomadores de crédito, os bancos também passaram a fazer empréstimos não-tradicionais, com juros mais baixos nos primeiros anos do contrato – e que depois eram reajustados para taxas mais altas – e prestações iniciais só com o pagamento dos juros.
  Um agravante dentro do processo de concessão de crédito imobiliário americano é o fato dos recursos serem oriundos basicamente de investidores, acrescenta Sidney Pereira do Nascimento, economista e professor da Universidade Estadual de Londrina.
  Segundo ele, as pessoas aplicam no banco, comprando títulos ou ações, por exemplo, e é esse o dinheiro liberado para empréstimo. ‘‘O sistema americano funciona basicamente em credibilidade: se o mercado está bom, o investidor permanece com o investimento, se não está bom ele quer de volta o dinheiro que aplicou’’, explica Nascimento. Como a inadimplência hipotecária ficou alta, os bancos não tinham dinheiro para devolver aos investidores ou o fizeram bem abaixo do que havia sido contratado.
  No Brasil, o recurso para financiamento habitacional é proveniente basicamente do Fundo de Garantia (FGTS) e da poupança. ‘‘Duas fontes seguras’’, afirma o superintendente da Caixa. Segundo ele, só para se ter uma idéia, há 28 meses consecutivos a captação da poupança tem sido positiva. De janeiro até outubro, o volume chegou a R$ 579 milhões.
  Roberto Luiz Bachmann comentou que a crise que se instalou no mundo pode até diminuir o ritmo de crescimento da captação, mas não vai prejudicar o setor. ‘‘O investidor brasileiro tem um perfil conservador. Então, em momentos de crise prefere tirar as aplicações de rendas variáveis e colocar na poupança que é um porto seguro. Ganha menos, mas ganha’’, pontua.
  Em relação ao FGTS, Bachmann destaca que nos últimos anos tem crescido o número de trabalhadores com carteira assinada e isso fortalece o sistema. É um recurso que não pode ser retirado aleatoriamente do banco, em momentos de crise, por exemplo, destaca Nascimento. Por isso, é uma forma mais segura.

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