São Paulo - Pelo menos R$ 70 bilhões ou 2% do Produto Interno Bruto (PIB) deixarão de ser ofertados na economia como crédito destinado a empresas e consumidores em 2009 em razão da crise financeira mundial, segundo projeções da LCA Consultores.
Antes do acirramento da crise, a expectativa era de que a oferta de crédito total aumentasse 21% em 2009 e fechasse o ano com um saldo de R$ 1,430 trilhão. Agora o cálculo foi refeito pelo economista-chefe da consultoria, Braulio Borges, levando em conta a crise, porém de intensidade moderada. As novas projeções indicam um crescimento bem menor do volume de empréstimos, na faixa de 15% ante 2008, que resultará num saldo de R$ 1,360 trilhão em dezembro em 2009.
Juros maiores e, especialmente, prazos menores devem desacelerar o crédito em 2009, que foi o grande motor da demanda doméstica nos últimos quatro anos. Mas, por enquanto, a massa salarial em alta e estímulos extras, como o 13º salário, que começa a ser pago em novembro a um número crescente de trabalhadores e pensionistas da Previdência, em razão da elevação do nível de emprego, e a estratégia do comércio de tentar subir os juros gradualmente, para não espantar o consumidor, vão garantir uma certa inércia do crescimento da demanda interna neste trimestre, concordam economistas.
''A crise deve empanar o brilho do fim de ano'', alerta o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Associados. Ele pondera, no entanto, que a redução no ritmo de atividade, sustentada principalmente pela demanda doméstica, deve se manifestar com clareza no primeiro trimestre de 2009. ''Não será um Natal fraco, mas o fim de ano deve ser mais modesto do que o inicialmente previsto'', diz o coordenador técnico da Tendências Consultoria Integrada, Marcio Nakane. Ele lembra que, mesmo antes do acirramento da crise financeira no mês passado, o Banco Central (BC) vinha elevando, desde abril, a taxa básica de juros, hoje em 13,75% ao ano. O resultado do movimento do BC nos últimos meses já tirou, ainda que timidamente, a aceleração da demanda interna.
Borges, da LCA, cita como exemplo desse movimento a queda que ocorre desde julho no nível da demanda interna por bens duráveis, já percebida pelas indústrias em relação ao mesmo mês de 2007, segundo dados da Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas(FGV). Os bens duráveis incluem eletrodomésticos e veículos, por exemplo, a maioria comprados a prazo, que sofrem imediatamente o impacto da alta das taxas de juros. Ele destaca também que, pela primeira vez, no mês passado a demanda interna global percebida pela indústria de transformação ficou abaixo do mesmo mês de 2007, segundo sondagem da FGV.
Nas projeções do economista, do crescimento do PIB de 3,7% para 2009, a contribuição da demanda interna será de 4,8 pontos porcentuais. Neste ano, para um crescimento de PIB estimado em 5,1%, a demanda interna responderá por 7,5 pontos porcentuais. A demanda interna inclui o consumo das famílias, gastos do governo e investimentos. A maior fatia vem do consumo das famílias. A demanda externa, que desde 2006 contribui negativamente para o crescimento do PIB deve afetar menos o indicador em 2009 por causa da valorização do dólar e o recuo das importações.

mockup