A recente explosão na quantidade de oferta de crédito ao consumidor começa a preocupar os especialistas, pois um maior volume de dinheiro em circulação costuma significar, tradicionalmente, um aumento nos índices de inadimplência.
No boletim do Banco Central (BC) divulgado na semana passada, por exemplo, o calote entre empréstimos bancários tinha crescido, passando de 3,5% para 4,7% em operações com atraso superior a 90 dias.
A maior evolução foi verificada nos empréstimos à pessoa física. ‘‘Já é histórico o fato da abertura de crédito resultar em aumento de inadimplência’’, diz o diretor de marketing do Grupo Unidos, maior em cobrança do País, Júlio Shinohara.
Mas o executivo do Unidos afasta o receio de uma inadimplência mais acentuada. ‘‘A inadimplência caiu 14% em 2000 e nossa projeção reflete um porcentual semelhante para este ano.’’
Claro que, por enquanto, a alta até agora não chega a ser alarmante porque está dentro das margens históricas do sistema bancário, mas o próprio Shinohara lembra da fragilidade do País frente à economia mundial, sob compasso de espera.
Para o diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo, o endividamento das pessoas vai crescer, mas não em grau elevado porque o fator determinante para esse aumento é o desemprego. ‘‘Nossas pesquisas mostram que 40% da causa do calote é reflexo do desemprego e como o número de vagas está aumentando, o crescimento da inadimplência deve ser equivalente ao crédito.’’
Segundo balanço divulgado este mês pelo BC, o volume de crédito disponibilizado pelos bancos para as pessoas físicas subiu 113,8% no ano passo. Para este ano, a expectativa dos especialistas é de nova expansão, frente à tendência de redução da taxa Selic, hoje, a 15,25% ao. Alguns já estimam a taxa básica em 10% no fim do ano. Se for confirmada, seria uma baixa de 5,25 pontos porcentuais. Com juros menores, os ganhos com o mercado financeiro diminuem, por isso, as instituições despejam mais dinheiro.
A super-oferta de crédito é explicada ainda pela concorrência entre os bancos, que se acirra conforme as instituições financeiras estrangeiras avançam para o campo do varejo.
Apesar do aumento da oferta, especialistas defendem a tese de que as instituições estão mais criteriosas na hora de conceder o crédito, e argumentam que o consumidor já tem experiência para não embarcar numa fria. Mesmo assim, altertam os consumidores, que devem resistir à ofensiva das instituições. ‘‘A renda não cresce na mesma proporção que a oferta de crédito’’, lembra o vice-presidente da Associação Nacional de Executivos Financeiros e de Contabilidade (Anefac), Miguel Oliveira. ‘‘O importante é a pessoa evitar se endividar demais e usar cheque especial ou cartão de crédito’’, diz Oliveira.

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