Crédito caro reduz crescimento do PIB
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sábado, 13 de julho de 2002
Agência Estado 
São Paulo - A turbulência no mercado financeiro nos últimos 60 dias provocou a disparada das taxas de juros de longo prazo, o que encareceu o crédito para empresas e consumidores, levando alguns analistas a revisar para baixo em meio ponto porcentual estimativas para o crescimento do PIB neste ano.
Enquanto os juros básicos estão parados em 18,5% ao ano desde março, a taxa das operações de um ano - que influencia de fato o custo de empréstimos e financiamentos - pulou de 20,41% em maio para 26,25% na sexta-feira.
Números da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostram que a taxa do crédito direto ao consumidor (CDC) aumentou de 3,76% para 4,17% em junho e que o prazo médio do crediário caiu de 12 para 10 meses e o máximo, de 36 para 24 meses.
O economista-chefe do Investment Bank, Alexandre Bassoli, por exemplo, reduziu sua previsão para o crescimento do PIB neste ano de 2,4% para 1,9% basicamente por causa da alta das taxas de juros de longo prazo e seu impacto sobre o crédito.
Para emprestar dinheiro a prazo, bancos e financeiras têm de captar recursos no mercado por períodos dilatados, como 12 ou 24 meses, por exemplo. Como o custo dessas operações aumentou significativamente, as instituições pagam bem mais para captar esses recursos, levando-as a elevar as taxas e encurtar os prazos dos empréstimos e financiamentos, como explica o professor da USP José Augusto Savasini, sócio da Rosenberg & Associados.
Bens duráveis - ''Os efeitos desse processo são desastrosos sobre a venda de bens duráveis'', afirma Savasini. ''O encurtamento do prazo provoca um aumento da prestação, que impede muitos consumidores de comprar o bem.'' O impacto é maior sobre os bens de consumo duráveis, como automóveis e eletroeletrônicos, porque o setor depende muito de vendas a prazo, diz ele.
Para Savasini, essa é uma das razões que provocaram as fortes quedas das vendas de carros em junho, que caíram 19,8% em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Savasini acabou de reduzir sua previsão de crescimento para 2002 de 1,6% para 1%, em boa parte por causa da elevação dos juros de prazos mais longos e do efeito sobre a venda de bens duráveis. Segundo ele, também pesaram em sua decisão as incertezas no cenário político, o aumento dos preços administrados (como energia elétrica e tarifas de telefone), que reduz a renda disponível do consumidor, e a alta do dólar, que subiu de R$ 2,505 para R$ 2,811 desde meados de maio.
Indústria - A elevação das taxas de longo prazo atinge em cheio a indústria. A economista Fernanda Senna, da BBA Corretora, estima que, em junho, a produção industrial caiu 1,1% em relação ao mesmo mês de 2001, porque a alta dos juros longos e os aumentos dos compulsórios promovidos pelo BC têm impacto sobre o custo dos empréstimos, afetando principalmente o setor de bens duráveis.
A previsão de Fernanda também leva em conta outros indicadores, como o tombo nas vendas de automóveis. Em maio, o desempenho da indústria já havia sido bastante ruim: uma queda de 0,9% em relação ao mesmo período do ano passado e de 5,1% em comparação com abril.


