São Paulo
A crise mundial nas Bolsas de Valores deu uma trégua nas festas de final de ano, mas as quedas desta semana - principalmente a de anteontem - mostram que a turbulência vai continuar em 98. Nenhum analista se arrisca a prever o desfecho do ‘crash global’, ou seja, as quedas em cascata nas Bolsas de todo o mundo.
O epicentro do furacão financeiro está na Ásia, mas os efeitos se propagam rapidamente pelo planeta. Há uma perplexidade geral com a velocidade da crise. Ontem, o Dow Jones, principal índice da Bolsa de Nova York, oscilou bastante. Chegou a cair 3,88% e fechou com 2,85% de baixa. No Brasil, volatilidade assim virou rotina. Mas, nos Estados Unidos, uma oscilação dessas é brutal.
Para muitos analistas, entretanto, era previsível que a Bolsa de Nova York, a maior de todas, sofresse novos abalos em 98. Desde que a crise asiática teve início, em julho, o Dow Jones recuou 1,20%. As Bolsas européias ainda acumulam alta no período. Nos mercados novos, chamados de emergentes, a débâcle é geral.
Nos últimos anos, a Bolsa de Nova York entrou num processo de supervalorização que, mesmo antes de estourar a crise na Ásia, levou o presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, a classificar a subida de ‘‘exuberância irracional’’.
Bolsa não justificava altas tão expressivas. De julho de 94 a dezembro de 97, o Dow Jones subiu nada menos do que 116,86%. No período, o Ibovespa subiu 152,05%, na esteira de Nova York e alimentada pelas privatizações. Se antes já havia a suspeita de que o Dow Jones subira de forma exagerada, a crise asiática traz os ingredientes para que investidores ‘‘realizem lucro’’, isto é, vendam as ações e embolsem o dinheiro antes que o mercado desabe.
Analistas estão divididos quanto ao futuro do Dow Jones. Há quem aposte numa queda de até 25%, trazendo o índice de 7.500 para 6.000 pontos. Se Nova York despencar, o Brasil vai atrás.
Outros descartam queda tão forte. Primeiro, porque a Bolsa nova-iorquina reúne empresas que valem US$ 9 trilhões. É diversificada, ao contrário do Brasil, que gira em torno de Telebrás. Depois, porque muitas empresas - como General Electric e Microsoft - têm adquirido suas próprias ações na baixa.
Outro argumento é que a economia norte-americana, o maior mercado do mundo, tem demonstrado vigor inusitado, crescendo sem parar com inflação baixa.
A dúvida é: até quando? A crise na Ásia, que parece não ter fim, pode se transformar no breque da expansão norte-americana. O socorro internacional se mostra incapaz de restabelecer a confiança e as dívidas dos Tigres Asiáticos, encarecidas pela forte desvalorização das moedas, caminham para a moratória, podendo afetar os Estados Unidos.

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