Produtores e atacadistas denunciaram ontem à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) a existência de irregularidades na Central de Abastecimento (Ceasa) de Curitiba. Eles disseram que tem ‘‘picaretas’’ nos dois setores, falta controle nas entradas e saídas de mercadoria e, como se previa, vários empresários faliram em função da chegada ao Estado dos hipermercados.
O destaque foi o empresário Amado Geraldo Domingos. Ele apareceu espontaneamente, demonstrando revolta contra a administração da Ceasa e contra uma rede de hipermercado. Amado contou que foi penalizado ao reclamar em assembléia da própria central da falta de apoio.
No dia seguinte à reclamação, foi avisado que se não pagasse as contas com credores, em cinco dias, deveria fechar o box onde funcionava sua empresa Cheiro de Horta. Ele tem dívidas de aproximadamente R$ 140 mil e calcula que o hipermercado tenha lhe causado prejuízos de aproximadamente R$ 200 mil.
Segundo Amado, ele entregava a mercadoria para receber em média 35 dias depois. Mas, muitas vezes, o valor acertado e constado em nota era corrigido pela compradora, que baseava-se em preços do mesmo produto vendido em promoções. ‘‘Se eu entregava o tomate a R$ 0,80 e a concorrência fazia propaganda de que estava fazendo grande oferta a preço de R$ 0,30, eles só me pagavam este valor.’’
O empresário disse mais: que ele próprio, antes de abrir a Cheiro de Horta, foi ‘‘picareta’’ e vendia seus produtos irregularmente na Ceasa. Para ter lugar no espaço chamado ‘‘pedra do produtor’’, ele deveria ser do setor e precisava de um atestado emitido pela Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). ‘‘Consegui um atestado falso de arrendamento e obtive o documento’’, admite.’’
O vice-presidente do Sindicato dos Permissionários da Ceasa, Dorival Villas Boas, não chegou tão a fundo, mas concordou que há a prática de irregularidades dentro da Central. Segundo o presidente do Sindicato dos Produtores de São José dos Pinhais, Maurício Valenga, a falta de controle é tanta que os agricultores acabam sofrendo com os próprios atacadistas, que pegam mercadoria dos produtores e não pagam.
‘‘Não é culpa do atacadista nem do produtor. O universo é muito grande’’, respondeu o presidente da Ceasa, José Lupion Neto. O diretor da Central, Júlio Minnioli Neto, disse que é questão de terminologia e ele denomina os ‘‘picaretas’’ de ‘‘trabalhadores irregulares’’. A Ceasa de Curitiba tem 2.150 produtores cadastrados, cerca de 500 empresas e movimenta diariamente em torno de R$ 2 milhões. O presidente da CPI, deputado Geraldo Cartário, disse que a situação é ‘‘muito grave e deixa claro que a fiscalização do Estado é fraca quando se trata de grandes grupos’’.

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