Os altos preços do trigo praticados nos mercados externo e interno já trouxeram reflexos diretos nos bolsos dos consumidores. Nos últimos meses, as indústrias de farinha vêm reajustando seus preços para cobrir os custos, medida que já começa a ser sentida no varejo. Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, desde abril o preço da farinha especial no atacado foi reajustado, em média, em 11% na Região Norte do Paraná.
Já no varejo a variação de custos da farinha de trigo foi menor - de quase 4% - conforme pesquisa coordenada pelo economista Flávio Oliveira dos Santos, que acompanha a evolução dos preços da cesta básica em Londrina. O índice de reajuste do quilo do pão francês comercializado nos supermercados foi semelhante ao da farinha, ou seja, de quase 4%. ''Os supermercados têm margem de 1,5% e não podem arcar com os aumentos das indústrias. Aumento de preços serão repassados aos consumidores'', observa Valmor Rovaris, superintendente da Associação Paranaense de Supermercados (Apras).
O diretor-presidente dos Moinhos Globo - indústria sediada em Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina) - Mário Venturelli, informa que, em média, o preço da farinha subiu 20% nos últimos 2 meses; enquanto o custo do farelo aumentou entre 7% e 8% neste período. ''Tentamos repassar (os aumentos) na medida do possível, mas há determinados momentos que o mercado não aceita mais reajustes e, a partir daí, há retração'', comenta. Segundo ele, o custo da tonelada de trigo para a indústria está em R$ 670. ''Se fôssemos acompanhar o preço da matéria-prima (trigo) o custo da farinha teria que dobrar'', diz.
Ele acrescenta que, por enquanto, ainda há trigo no mercado porque o Paraná está em plena safra. ''Mas estamos preocupados com a entressafra. Podemos enfrentar problemas de abastecimento'', afirma. A preocupação vem da recusa argentina em exportar o grão para o Brasil, dando preferência às vendas de farinha, e aos baixos estoques mundiais. ''O governo deveria ser mais sensível ao setor e reduzir à TEC (Tarifa Externa Comum) do trigo mas, sinceramente, não esperamos uma medida muito rápida'', observa.
A Associação Brasileira das Indústrias do Trigo (Abitrigo) iniciou uma campanha junto ao governo federal para isenção da TEC do trigo oriundo de países de fora do Mercosul. A taxa é um acordo para proteção do Mercosul e, desta forma, o trigo importado da Argentina fica mais barato do que o produzido no restante do mundo. A alíquota é de 10% e os importadores ainda têm que arcar com o custo do frete da marinha mercante, que é de cerca de 25%. ''Acredito que só um clamor público vai mudar esse quadro'', afirma Venturelli.
Para o pesquisador do Cepea Lucílio Alves não há dados técnicos que indiquem variações bruscas de preço do trigo, tanto positivas ou negativas, até o final do ano. ''O mercado é regido pela lei da oferta e da demanda. Temos o avanço da safra, mas as cotações no mercado internacional estão altas e os estoques mundiais baixos. Esse cenário vai favorecer a estabilidade ou a manutenção do preço do trigo no Brasil, que estão em patamares elevados'', salienta.

mockup