Cotação do dólar terá liberdade restrita
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terça-feira, 19 de janeiro de 1999
Agência Folha 
O Banco Central comunicou ontem, no segundo dia de livre flutuação do câmbio, que fará intervenções ocasionalmente e de forma limitada no mercado para conter movimentos desordenados na taxa de câmbio. Ou seja, o mercado terá liberdade controlada para definir a cotação do dólar.
O comunicado divulgado ontem pelo BC sobre a nova política cambial tem dois pontos. O primeiro diz que desde ontem o mercado passaria a definir a taxa de câmbio. O segundo destaca exatamente a possibilidade de o BC intervir ocasionalmente no mercado, o que acontecerá quando ele considerar que a taxa atingiu um valor indesejado.
Ontem, o real sofreu desvalorização de 4,72%, fechando em R$ 1,59, contra R$ 1,4659 na sexta-feira, na média dos negócios fechados durante o dia. O real já sofreu desvalorização de 21,26% desde quarta passada. Na prática, o BC está adotando um sistema de câmbio que os economistas definem como flutuação suja.
Ele se inspira no sistema de livre flutuação do dólar, no qual o mercado tem plena liberdade para definir a cotação da moeda norte-americana. Nesse regime, o câmbio é considerado um preço livre como os demais da economia. Quem tem a moeda norte-americana pede seu preço e quem quer comprá-la oferece quanto está disposto a pagar.
O sistema adotado hoje é considerado flutuação suja porque o BC pode intervir no mercado sem prévio aviso, quando considerar que a cotação do dólar está atingindo níveis indesejados. No sistema de flutuação suja, o BC age usando o elemento surpresa. A cotação do dólar considera indesejada é mantida em segredo e, quando a moeda norte-americana a atinge, o BC intervém.
A intervenção do BC pode ocorrer de duas formas: vendendo dólares ou comprando a moeda norte-americana. O BC vende dólares quando procura segurar a cotação. Agindo assim, a instituição aumenta a oferta de dólares e o preço da moeda norte-americana recua. A compra de dólares ocorre para segurar o câmbio. Se a cotação despenca, o BC compra a moeda e reduz sua oferta no mercado, provocando elevação do preço.
No comunicado, divulgado às 8h59, um minuto antes da abertura das mesas de câmbio dos bancos, o BC dá um passo além no regime de flutuação criado na sexta-feira passada. Naquela ocasião, o BC anunciou que estava deixando de intervir no mercado de câmbio, o que equivale a dizer que, pelo menos naquele dia, vigoraria um sistema de flutuação pura do câmbio.
A medida baixada na sexta teve o objetivo de conter a perda de reservas ocorrida desde a criação do sistema de bandas largas, que durou apenas 48 horas. Pelo sistema de bandas, o BC se obrigava a não deixar a cotação do dólar superar R$ 1,32, o teto da antiga banda. Para tanto, vendia dólares das reservas em moeda estrangeira do BC.
Em dois dias, o BC vendeu US$ 2,8 bilhões para segurar a cotação do dólar, e, caso continuasse essa venda maciça de dólares, as reservas poderiam cair abaixo do volume mínimo de US$ 20 bilhões fixado no acordo com o FMI. O sistema de livre flutuação adotado na sexta desobrigou o BC de vender dólares para segurar a cotação da moeda norte-americana. Assim, cessa a perda de reservas.
O risco da saída do BC do mercado de câmbio é a cotação do dólar subir mais do que o desejado e a inflação voltar a crescer. A desvalorização do real encarece os importados e aumenta custos de produção das empresas. Foi para evitar esses efeitos indesejados que o BC anunciou que irá intervir no mercado de câmbio quando considerar necessário.


