RIO - O procurador da República italiano Roberto Scarpinato, que denunciou o ex-primeiro ministro da Itália Giulio Andreotti por envolvimento com a máfia, revelou ontem no Rio que a Justiça italiana já identificou 15 brasileiros envolvidos com a cúpula da Cosa Nostra. O chefe dos brasileiros, segundo Scarpinato, é um homem sem antecedentes criminais, que só foi identificado graças à Operação Gulliver realizada em 1995 pela Polícia e a Justiça italianas. Desde então, afirmou o procurador, a Justiça italiana, que enviou um relatório para o Ministério da Justiça, aguarda o depoimento dos brasileiros, cujos nomes estão sendo mantidos em sigilo.
De acordo com Scarpinato, que está participando do 2º Fórum Sobre Crimes sem Fronteira, no Hotel Rio Palace, em Copacabana, a Operação Gulliver investigou a rede do tráfico internacional que envolvia as famílias mafiosas italianas, o Cartel de Cáli, na Colômbia, e outras organizações da América Latina. Ainda segundo Scarpinato, as centenas de famílias mafiosas na Itália ganham cada vez mais importância política. ‘‘Na Itália, cada uma dessas famílias controlam em torno de 35 mil votos e na Sicília, na Calábria e no campo esse controle atinge 15% dos eleitores’’.
No Japão, na Turquia e na Rússia, segundo Scarpinato, os mafiosos estão dominando o mercado criminoso e têm forte influência política. O juiz federal Willian Douglas, que coordena o fórum no Rio, lamentou que a falta de entrosamento dos países acabe favorecendo o crime organizado. ‘‘O Brasil, a Rússia e a China são os países com a legislação mais fraca no combate ao crime organizado, tanto assim que só agora o projeto de lei contra a lavagem de dinheiro será votado’’.
Segundo o procurador italiano, o julgamento do ex-primeiro ministro Andreotti deverá ser concluído no final de 1997. ‘‘Ainda faltam ser ouvidas 600 testemunhas’’. Durante o seminário, o senador Pino Arlachi, que foi vice-presidente da comissão parlamentar anti-máfia na Itália, disse que os mafiosos estão investindo cada vez mais em negócios legais, como fazendas e imóveis.
Já a juíza brasileira Denise Frossard, que condenou os bicheiros do Rio, disse que a lavagem de dinheiro é a principal atividade dos traficantes. ‘‘Moro no Leblon, a uma quadra da praia, e acho que meus vizinhos têm muito mais condição de lavar dinheiro do que o pessoal da favela’’. Scarpinato se mostrou preocupado com a situação do Brasil. ‘‘A máfia vem cooptando as gangues e quadrilhas, e exporta know how, transformando pequenas empresas criminosas em multinacionais das drogas’’.

mockup