Os dados levantados pela multinacional Duke Energy, que controla oito usinas hidrelétricas no Rio Paranapanema, são assustadores. A empresa mantém postos fluviométricos nos três rios mais importantes das regiões Norte e Norte Pioneiro do Paraná - Tibagi, Cinzas e Laranjinha - pelo fato de as águas desses rios chegarem ao Paranapanema e, consequentemente, aos reservatórios das hidrelétricas.
As medições mostram o quanto as chuvas que caíram na última semana e resultaram em enchentes foram violentas. Os números apontam o seguinte: o pico de vazão do Tibagi foi registrado às 22 horas do último dia 30, quando o volume de águas na estação da Duke em Jataizinho foi de 3.324 metros por segundo, valor mais de três vezes acima da média para o mês de janeiro, que é de 978 metros cúbicos por segundo. No Laranjinha, o pico foi registrado no posto de Porto Santa Terezinha às 6 horas de terça-feira. A vazão era de 1.267 metros cúbicos por segundo, nove vezes maior do que a média de janeiro, que foi de 139 metros cúbicos por segundo. No Rio das Cinzas, o pico, registrado no posto de Andirá, foi às 5 horas de quarta-feira: 1.671 metros cúbicos por segundo, sete vezes acima da média de janeiro, que foi de 228 metros cúbicos por segundo.
As cheias desses rios, principalmente o Cinzas e o Laranjinha, e de seus afluentes causaram muitos prejuízos na área rural do Norte Pioneiro. O número de pontes que caíram e de estradas rurais interditadas ainda é incalculável, mas chega à casa das centenas. Em diversos municípios, produtores e prefeituras se esforçam para restabelecer o tráfego e conseguir escoar a produção. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab) ainda não tem números, mas basta sair a campo para ver que os prejuízos foram razoáveis por conta das enchentes.
Só em Ibaiti, que é o maior da região em extensão de terras, com aproximadamente 900 quilômetros quadrados de área, 32 pontes foram danificadas. Também há diversos trechos de estradas rurais intransitáveis por conta de bueiros que estouraram ou da erosão. ''A situação está difícil, pois temos que escoar a produção. Além disso, provavelmente teremos que adiar o início das aulas municipais, que seria na segunda-feira. Não há como transportar os alunos'', preocupa-se a diretora do Departamento de Agricultura e Abastecimento de Ibaiti, Viviane Chueire.
No município, predominam as pequenas e médias propriedades, que trabalham principalmente com cana-de-açucar, leite, café e avicultura. É gente como Avenício da Silva, que produz leite num sítio de 12 hectares. Ele perdeu três vacas, ''a Holandesinha, a Pintassilgo e a Jersinha'', como destaca, na enchente do ribeirão que passa na sua propriedade. ''As águas vieram de uma vez e foram arrastando tudo o que estava na beira. Todos os meus vizinhos perderam gado, um dez cabeças, outro sete... Tá cheio de boi morto na beira do rio. Não tenho nem coragem de ir ver'', lamenta.
Contudo, a cena mais assustadora de Ibaiti está no projeto de assentamento Vale Verde, onde a Represa Santa Laura, formada por água de minas, de 14 hectares de extensão e 30 metros de profundidade máxima, rompeu-se devido ao excesso de chuvas. No local, sobrou um pouco de água e uma cratera enorme, de solo rachado, e a tristeza do técnico agrícola da Emater Tiales Valdinei de Mirante. Ele começava um projeto piloto de criação de peixes em tanques-rede na represa, com duas famílias do assentamento. Tudo estava indo bem e a ideia era incluir mais 28 famílias num futuro próximo.
''Está para sair um frigorífico de tilápias em Cornélio Procópio e poderíamos ser fornecedores. Agora espero que a represa possa voltar a existir para que eu leve o projeto adiante'', comenta o técnico-agrícola. Porém, de acordo com Viviane Chueire, seriam necessários mais de 500 caminhões de terras para tapar o buraco que as águas da Santa Laura causaram numa encosta, que além do estouro da represa também interrompeu a estrada que passava ao lado dela.

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