Coronavírus coloca feiras rurais em compasso de espera

Vitrines do setor e importante ferramenta para fechamento de negócios, feiras agropecuárias de todo o Brasil são adiadas ou canceladas devido à epidemia

Mie Francine Chiba - Grupo Folha
Mie Francine Chiba - Grupo Folha

Coronavírus coloca feiras rurais em compasso de espera
Marcos Zanutto/29-4-2019
 

As medidas de prevenção ao novo coronavírus estão fazendo com que as feiras agropecuárias do País sejam canceladas ou adiadas. Locais onde importantes negócios do agronegócio são fechadas, as feiras têm grande impacto sobre a economia do setor.


A ExpoLondrina, que aconteceria de 9 a 19 de abril, foi cancelada e ainda não tem previsão de nova data. No entanto, o presidente da SRP, Antônio Sampaio, descartou a realização do evento ainda esse ano. Cerca de 8 mil contratos de empregos temporários seriam firmados nesta edição. No ano passado, a ExpoLondrina movimentou R$ 615,6 milhões e recebeu 464.103 visitantes.




A Agrishow, que aconteceria de 27 de abril a 1º de maio em Ribeirão Preto, também foi adiada, mas ainda não tem data para acontecer. Mais de 800 marcas expositoras estavam confirmadas para o evento, que chegaria à sua 27ª edição. O público era estimado em 150 mil visitantes. 


O coronavírus causou ainda o cancelamento da Tecnoshow Comigo, principal feira agrícola do Centro-Oeste, sediada em Rio Verde (GO). A suspensão segue por tempo indeterminado. A feira seria realizada entre os dias 30 de março e 3 de abril. Em 2019, a Tecnoshow reuniu 118 mil visitantes, movimentou R$ 3,4 bilhões em negócios e teve 580 expositores. 


A Expozebu – Exposição Internacional de Gado Zebu, que chegaria esse ano à sua 86ª edição, também foi adiada em Uberaba (MG). A Exposição aconteceria entre os dias 25 de abril e 3 de maio. A nova data ainda não foi divulgada.


Foi igualmente adiada a Expogrande – Exposição Agropecuária e Industrial de Campo Grande, pelo período de 60 a 70 dias. O evento seria realizado de 26 de março a 26 de abril. Segundo Jonatan Pereira Barbosa, presidente da Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul), a Expogrande, que chega esse ano à sua 82ª edição, deixou de acontecer apenas uma vez em toda a sua história: durante a Segunda Guerra Mundial.


“Naturalmente estávamos com tudo pronto, inclusive com compromissos atendidos, algumas despesas feitas. Mas não poderíamos fazer um evento que reúne milhares e milhares de pessoas ao mesmo tempo. (O prejuízo) Seria muito pouco comparado com a vida, a ordem e a paz de todas as pessoas”, salientou Barbosa. 


Segundo o presidente da Acrissul, é através da feira que são conhecidos os preços do bezerro e do boi magro, que definem os valores do boi gordo. “(A feira) Marca o compasso do ano em relação à expectativa de preços.”


“Muitos negócios são fechados nas feiras. Elas funcionam como vitrines do setor”, comenta Luiz Eliezer, técnico do Departamento Técnico Econômico da Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná). “Tem divulgação de novas tecnologias, novas sementes, agroquímicos, e tudo isso (cancelamentos) gera bastante impacto negativo setor. Tem negócios que deixam de ser fechados e tecnologias que o setor não vai conhecer.”


Venda de animais será prejudicada

Engenheiro agrônomo da Scot Consultoria, Alcides Torres afirma que as feiras são importantes locais de comercialização de animais. Com as precauções em relação ao Covid19, os leilões praticamente cessaram. “Posso não ir ao leilão e ir diretamente à fazenda, mas a recomendação é não circular. Isso afeta o sistema de comercialização de gado. Não é bom para os negócios.”


Com a ExpoLondrina cancelada, o médico veterinário e assessor da FL assessoria, Flávio Baccarin, deixará de realizar dois leilões e de participar do “shopping” que tomaria o espaço do evento com a venda de animais. A estimativa da organização era chegar a R$ 700 mil de faturamento com o shopping. “É um volume importante de dinheiro que donos de animais deixam de faturar. Eles vêm se programando há bastante tempo, investindo em divulgação, material.” 


Mesmo que o evento seja realizado em outra data, Baccarin avalia que o resultado pode não ser o mesmo. “A pessoa já se programa para vir naquela data, difícil vir em outra. Às vezes ela não pode. É uma perda bastante grande.”


Os leilões serão mantidos on-line e pela TV, mas os resultados esperados não são tão animadores quanto dos eventos presenciais. “Quando é presencial o efeito é muito melhor. O comprador gosta de estar presente”, explica Baccarin. Cerca de 50% do faturamento dos leilões vem das negociações presenciais. Na edição anterior de um dos leilões, o faturamento foi de R$ 450 mil, e a expectativa esse ano era superar esse volume. Quinze vendedores estavam confirmados. Eram esperadas 350 a 400 pessoas nos eventos presenciais, entre compradores ou não. Nos leilões on-line, costumam comparecer apenas os compradores que dão lances efetivamente – cerca de 10 do total.  


Segundo Torres, da Scot Consultoria, os leilões on-line ainda não são utilizados de maneira generalizada. “Tem gente que gosta de comprar on-line e tem gente que não.”


Efeitos do vírus vão além das feiras

No setor de máquinas e equipamentos agrícolas, o impacto do cancelamento ou adiamento de feiras agropecuárias nas vendas é considerado importante, mas pequeno quando comparado com o impacto do coronavírus no setor de forma geral. “Tem um percentual grande das vendas que são fechadas em feiras. A feira é um importante veículo para fechar negócios. Mas estamos avaliando que o impacto do coronavírus é muito maior que o adiamento das feiras”, diz Pedro Estevão, presidente da CSMIA (Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas). 


Segundo ele, o temor dos efeitos do vírus na economia pode fazer com que o agricultor decida adiar os investimentos, prejudicando as vendas do setor. “Temos um outro problema sério que é a quebra da cadeia de suprimentos, que pode parar as fábricas”, acrescenta Estevão.




Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento, frisou, no entanto, que nesse momento “a preocupação imediata e quase total do Estado e da secretaria, em particular, é com a adoção de medidas que possam preservar o máximo possível a saúde e a vida das pessoas”. “Entre essas medidas, está a determinação de se evitar qualquer aglomeração”, continua.

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