Ex-produtor de leite fala da experiência de 20 anos na pecuária e das causas que o levaram a abandoná-la. No ano de 1979, um carioca nascido em Ipanema, amante do alpinismo, resolveu abandonar a vida agitada – dividida entre a casa em Petrópolis e o trabalho no Rio de Janeiro – e mudar com mulher e filhos para a região de Londrina. Queria tornar-se produtor rural. Um bom produtor rural. E conseguiu.
Durante 20 anos, Rudolf Hulsmeyer dedicou seus dias à luta para tornar produtiva a fazenda de 42 alqueires em Tamarana (62 km ao sul de Londrina). No início criou gado girolando, plantou arroz e milho. Uma década depois achou que era hora de profissionalizar a produção de leite e resolveu investir na raça jersey. Mudou-se para a fazenda, iniciando um período de cursos, seminários, busca de informações, investimento em mão-de-obra.
Tanto esforço, porém, não evitou a dura decisão de sair do mercado e abrir mão do selecionado plantel. ‘‘Há dois anos, vendemos as 70 fêmeas para uma propriedade em Bataguaçu (MS).’’ A tristeza que sentiu na época ainda está viva na memória do ex-produtor, que se emociona ao falar das pequenas vacas, chamadas carinhosamente por ele de ‘‘meninas’’. Elas eram o resultado de um longo trabalho de evolução genética.
Hulsmeyer justifica a escolha por abandonar a pecuária: ‘‘Quando percebemos que estávamos vendendo nosso patrimônio para pagar despesas, resolvemos parar.’’ Parte da propriedade (15 alqueires) foi vendida e transformada em Vila Rural. O restante, arrendado para plantio de arroz e milho. ‘‘Acho que fizemos nossa parte, deixamos um bom produto no mercado.’’ Ele ensina que o produtor rural deve saber a hora deixar a atividade, mas avisa: ‘‘É preciso ter mais coragem para parar do que para começar’’.
Mas o que faz um produtor modelo, com vários prêmios de produtividade e qualidade, sair da atividade agropecuária? As causas são várias, na opinião de Rudolf Hulsmeyer. ‘‘A produção de leite exige investimentos a médio e longo prazos, mas paralelamente não existe uma política agrícola que dê ao produtor a certeza do que ele deve fazer.’’ O ex-produtor constuma dizer que entramos num pacote tecnológico de primeiro mundo, mas estamos no terceiro mundo, onde não há condições propícias para emprego da tecnologia.
Ele lembra que o modelo de propriedade leiteira adotado na região tem que atender três segmentos distintos: produzir os animais; produzir o alimento para estes animais e produzir o leite. Em países como os Estados Unidos, segundo ele, quem produz leite só faz isso, é a sua especialidade. Ao seu lado, na mesma região, tem os vizinhos que só trabalham na produção animal e na produção do alimento. ‘‘Mas quando a gente tem que fazer as três coisas ao mesmo tempo, alguma delas não vai sair bem, e tudo vai ficar só mais ou menos’’, argumenta.
A abertura de mercado, na opinião de Hulsmeyer, foi outro fator que dificultou a vida dos produtores. Ele acredita que nem cooperativas nem produtores estavam preparados para a concorrência internacional, ‘‘que é muito desleal’’. ‘‘Com a falta de subsídios e apoio, é muito difícil para o produtor brasileiro acompanhar a evolução do resto do mundo.’’ Diante desta realidade, diz Hulsmeyer, a atividade acaba resumida à administração de incertezas.

mockup